(J. R. Guzzo, publicado no jornal O Estado de S. Paulo em 12 de julho de 2025)
O Brasil está com um problema sério, o pior, provavelmente, que já viveu em suas relações exteriores.
De um lado, levou uma descompostura em regra dos Estados Unidos — uma carta enviada pelo presidente americano ao presidente brasileiro, com pontos de exclamação e tudo, diz coisas que o governo de país nenhum pode ouvir sem falar nada.
De outro, se vê no meio de uma briga que não planejou, não tem como ganhar e não serve a um único interesse real do Brasil.
Ninguém pode achar um bom negócio entrar na lista negra da maior potência do mundo.
A China, por exemplo, tem certeza de que não é; tem a economia número dois do mundo e ainda assim não quer receber uma carta como a que Lula recebeu.
Não quer, sobretudo, ter a obrigação de fazer alguma coisa hostil contra os Estados Unidos para dar a chamada “reposta à altura”.
A China não está no negócio de dar “respostas à altura”.
Está no negócio de se sair bem no comércio internacional, ser uma força séria no avanço da tecnologia e desenvolver a sua economia mais que qualquer outra nação do mundo.
Já o Brasil, neste episódio, está num conflito que não lhe interessa.
Não vai ganhar nem um centavo com ele. Mas se vê forçado a reagir às ofensas que recebeu — e se afundar numa briga imposta pelo adversário.
O Brasil tem agora, entre outras obrigações que não tinha e não lhe interessam cumprir de responder com “reciprocidade” as sanções que acaba de receber.
Mas é complicado dar tratamento recíproco aos Estados Unidos se você não é um outro Estados Unidos — é como o Madureira querendo jogar de igual para igual com o Real Madrid.
Não há rigorosamente nada no Brasil que os Estados Unidos precisem realmente comprar. Já o Brasil tem de comprar lá um oceano de coisas.
Governo Lula, os EUA e a taxa de 50%
Não são blusinhas, nem baldes de plástico.
São produtos essenciais para o funcionamento da indústria e da economia brasileira, num arco que vai dos componentes eletrônicos mais sensíveis a equipamentos médicos de última geração.
Tarifa de 50%, aí, é aumento de custo direto na veia. Já o produto brasileiro, taxado nessas alturas, simplesmente sai do mercado.
Ninguém, a começar pelos Estados Unidos, depende do Brasil para nada.
Por acaso o Brasil exporta microprocessadores, satélites para comunicação e peças para aviões B-2?
Alguém no mundo quer comprar um navio brasileiro?
Temos patente de alguma tecnologia crítica?
Fica difícil, aí, falar em reciprocidade.
É ruim, mas foi isso que o governo Lula procurou desde o primeiro dia: fazer do Brasil o inimigo número 1 dos Estados Unidos no mundo.
A conta chegou.
foto ilustração: Diário de Natasha


