A vacina contra a derrota. Trump virou o culpado? Eleição pode ser anulada?
Lula está preocupado com a interferência de Trump nas eleições brasileiras.
Mas, diante de tanta insistência, uma pergunta começa a incomodar: o presidente está defendendo a soberania nacional ou preparando o terreno para questionar um eventual resultado desfavorável?
A vacina contra a derrota
Lula parece ter encontrado um adversário conveniente antes mesmo de o eleitor brasileiro decidir o futuro do país: Donald Trump.
O presidente brasileiro repete alertas sobre a suposta ingerência dos Estados Unidos, cita o secretário de Estado Marco Rubio e manifesta preocupação com a influência americana no processo eleitoral.
Em entrevista à CNN Internacional, em 21 de setembro, Lula disse estar preocupado com uma possível interferência de Rubio e mencionou suspeitas relacionadas ao uso de inteligência artificial.
Na ocasião, o próprio presidente reconheceu que se tratava, por enquanto, de uma suspeita.
Suspeitas podem e devem ser investigadas quando existem elementos concretos.
O problema começa quando a suspeita se transforma em discurso político permanente, capaz de lançar uma sombra sobre a eleição antes mesmo de as urnas serem abertas.
Seria essa a vacina de Lula contra uma possível derrota?
Trump virou o culpado de plantão?
O governo americano negou que esteja tentando interferir nas eleições brasileiras.
Em declaração divulgada pela CNN Brasil, a porta-voz do Departamento de Estado, Amanda Roberson, afirmou que a escolha do próximo presidente cabe aos brasileiros e que interferir em eleições estrangeiras não faz parte da estratégia americana.
Países estrangeiros podem ser questionados quando há indícios de interferência. Mas também é necessário apresentar provas, identificar responsabilidades e respeitar o devido processo.
O que não parece saudável para a democracia é a tentativa de transformar cada adversidade política em uma ameaça estrangeira.
Se a eleição for favorável a Lula, tudo bem.
Se for desfavorável, surgirá a pergunta inevitável: será que o resultado foi influenciado por Trump?
E, se essa narrativa for repetida durante meses, quem poderá garantir que não será utilizada para colocar em dúvida a vontade do eleitor?
Basta Lula levar esta narrativa ao domado Supremo Tribunal Federal.
O PT já levou a suspeita aos tribunais
A discussão deixou de ser apenas retórica. Em 23 de setembro, o PT acionou o STF e o TSE com pedidos relacionados a uma suposta articulação de interferência americana nas eleições, envolvendo Flávio e Eduardo Bolsonaro.
A iniciativa foi noticiada pela Folha de S.Paulo.
As instituições devem examinar as denúncias dentro de suas competências e com base em evidências.
O direito de peticionar à Justiça não pode ser confundido com prova de que uma conspiração eleitoral foi comprovada.
Mas a questão política permanece: qual será o limite entre proteger a eleição e utilizar o medo da interferência externa para deslegitimar adversários e resultados?
O Brasil não pertence a Lula, Trump, ao PT, ao PL ou a qualquer grupo político.
A soberania começa respeitando o eleitor
A oposição tem o direito de questionar o governo. E o eleitor tem o direito de votar sem ser tratado como figurante de uma disputa entre potências.
O discurso de soberania não pode valer apenas quando interessa ao governante.
A soberania brasileira também se manifesta na liberdade de escolha do cidadão, no respeito à legislação eleitoral e na aceitação de resultados regularmente apurados.
Se houver interferência estrangeira comprovada, que os responsáveis sejam investigados e responsabilizados.
Se houver irregularidade eleitoral, que seja examinada pelos meios legais.
Mas, se o resultado não agradar ao Palácio do Planalto, a solução não pode ser inventar um inimigo externo para explicar a derrota.
A urna não precisa de um escudo político
A eleição brasileira não deve ser transformada em uma disputa entre Lula e Trump.
O brasileiro precisa avaliar os candidatos, suas propostas, seus governos e suas responsabilidades diante do país.
A insistência em apontar o dedo para Washington pode ser uma preocupação genuína ou uma estratégia política.
Temos todo o direito de questionar as consequências de uma narrativa que, repetida sem provas suficientes, pode alimentar desconfiança sobre o resultado eleitoral.
No fim, a democracia não precisa de vacina contra o voto popular. Precisa de respeito à decisão dos eleitores.
E se Lula perder, que não procure Trump na urna. Procure a resposta no eleitor brasileiro.
Jornalista Marco Aurélio, mspontocom
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