Opinião mspontocom e a herança maldita para 2027
Há anos o brasileiro ouve falar em “herança maldita”. Normalmente, a expressão aparece quando um governo termina e o sucessor descobre que, segundo sua versão, recebeu uma verdadeira caixa-preta das contas públicas.
Pois bem. Talvez 2027 reserve uma pequena ironia da história: a “herança maldita” poderá mudar de endereço.
A dívida bruta do setor público chegou a R$ 10,8 trilhões em junho de 2026, equivalente a 81,9% do PIB, segundo o Banco Central.
É o maior percentual desde abril de 2021 e está perigosamente próximo dos 87,6% registrados em outubro de 2020, no auge da pandemia.
A conta não cresce sozinha. Juros elevados, crescimento econômico moderado e ausência de poupança pública formam uma espécie de “combo fiscal” que ninguém gostaria de receber de presente.
E 2027 pode ser o momento da cobrança.
Economistas vêm alertando que o próximo ano poderá exigir um forte aperto fiscal justamente quando a economia deverá enfrentar juros ainda elevados e menor ritmo de crescimento.
O problema é que o orçamento brasileiro parece ter sido escrito com supercola: despesas obrigatórias, benefícios e gastos vinculados deixam pouco espaço para cortar.
Traduzindo para o português popular: boa parte da carteira já tem dono.
E aí aparece outro personagem importante nessa história: Armínio Fraga, ex-presidente do Banco Central e um dos economistas associados ao Plano Real.
Fraga declarou voto em Lula no segundo turno de 2022. Agora, porém, faz um alerta bastante incômodo ao governo petista.
Segundo o economista, os sinais na área macroeconômica “não são bons” e Lula poderia colaborar para derrubar os juros dando mais atenção à responsabilidade fiscal.
É uma crítica que merece atenção justamente porque não vem de alguém que possa ser facilmente colocado na prateleira dos “inimigos de Lula”.
O alerta é simples: brigar com os juros não faz os juros desaparecerem.
Quando o governo gasta mais do que consegue arrecadar, alguém precisa pagar a conta. E, no fim das contas, ela costuma aparecer em forma de dívida, inflação, impostos ou juros maiores.
Por isso, talvez o grande problema de 2027 não seja apenas quem estará sentado na cadeira presidencial.
Será o tamanho da conta que estará sobre a mesa.
Lula costuma falar em “herança maldita”. A pergunta que fica para 2027 é inevitável: e se, desta vez, o próximo presidente encontrar uma herança maldita com o carimbo do próprio governo Lula?
Calma. Ainda não chegamos a 2027.
Mas a conta, aparentemente, já chegou.
E não veio sozinha.
Trouxe calculadora.
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