Captura de Maduro pelos EUA afeta reeleição de Lula

O ano da corrida presidencial no Brasil começa sob o impacto da captura de Nicolás Maduro pelos Estados Unidos, episódio que enfraquece o presidente Lula.

Deve-se ao fato por sair em defesa do ditador venezuelano e ignorar o fato de o regime chavista ser amplamente acusado de autoritarismo, fraudes e violações de direitos humanos.

Os efeitos dessa crise podem afetar sua campanha pela reeleição.

Para especialistas ouvidos pela Gazeta do Povo, o embate entre os discursos contra e a favor da operação militar americana na América do Sul pode transbordar a política externa e influenciar diretamente o ambiente eleitoral ao longo do ano.

Não por acaso, o senador Flávio Bolsonaro (PL), pré-candidato a presidente e principal rival de Lula nas urnas, foi na linha oposta à do Palácio do Planalto e explorou as ligações históricas entre o petista e o chavismo.

O professor de Relações Internacionais Daniel Afonso da Silva, da USP, avalia que, por pragmatismo eleitoral, Lula pode virar a página mais rapidamente do que seu partido.

Mas alerta: um posicionamento equivocado sobre a queda de Maduro tende a produzir efeitos duradouros nas eleições presidenciais e até de governadores.

“Não dá simplesmente para condenar a queda de Maduro quando os venezuelanos espalhados por vários estados brasileiros aprovam e exaltam esse desfecho”, afirma.

Ao analisar o papel do Brasil, Silva é crítico da diplomacia do governo petista em relação à Venezuela.

Para ele, há descompasso entre a visão técnica do Itamaraty e a orientação política da atual gestão.

Itamaraty tenta equilibrar condenação à captura e diálogo com os EUA

Para o Brasil, o episódio envia sinal claro sobre o novo cenário geopolítico e obrigou o governo a equilibrar reações delicadas.

A ação americana também colocou Lula em posição sensível, já que o petista condenou a operação como sendo violação da soberania venezuelana, ao mesmo tempo em que tenta manter canais de diálogo com Washington.

Especialistas advertem que a estratégia americana com foco em segurança, narcotráfico e contenção de influências externas pode ter implicações mais amplas para a atuação brasileira em temas de cooperação regional.

Lula criticou com veemência a ação do governo de Donald Trump na Venezuela e afirmou que os ataques “ultrapassam linha inaceitável” e representam “precedente extremamente perigoso” para a comunidade internacional.

A situação expôs ainda a postura ambígua de Lula em relação à guerra na Ucrânia, em que evita condenar Vladimir Putin e sugere responsabilidade compartilhada pelo conflito.

O cientista político Ismael Almeida frisa que o regime de Maduro manteve-se por anos à vista do mundo por meio de repressão, fraude eleitoral e violações de direitos humanos documentadas por relatórios da ONU e investigações independentes, enquanto a comunidade internacional optou por omissão, relativismo e gestos diplomáticos nulos.

“Na prática, essa postura – na qual se encaixa bem com a de Lula – validou a ditadura, diante da falência de organismos multilaterais em produzir consequências”, diz.

Para Daniel Afonso da Silva, professor de Relações Internacionais da USP, os próximos dias ainda serão marcados por um confronto global intenso de narrativas em torno da captura de Maduro.

Segundo ele, haverá “guerra de desinformação e de exortações ao constrangimento”, que tende a produzir uma “hipocrisia generalizada” ao deslocar o foco central da operação.

“O regime chavista é notadamente ilegal, imoral e injusto para a população venezuelana. Trump avisou desde o primeiro mandato, tentou negociar e foi sistematicamente ignorado por Maduro e, também, por países da região, sobretudo o Brasil. O desfecho extremo foi a operação de sábado”, afirma..

Em contraste com a mensagem de governos de esquerda — Brasil, México, Chile, Colômbia, Uruguai e Espanha —, a Argentina articula a formação de bloco regional de governos de direita, alinhado ao combate a regimes autoritários e à proximidade estratégica com os EUA.

Sob liderança do presidente argentino, Javier Milei, a ação rompe com o tradicional consenso diplomático da região e expõe divisão ideológica em torno da ação contra Maduro: defesa de direitos humanos versus afinidade com o chavismo.

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Via Gazeta do Povo

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