A frase título deste artigo pertence a “O livro vermelho do Lula”, coletânea de pensamentos do presidente, desde os anos 70, recolhidos pelo autor Duda Teixeira (Edições 70).
Será possível perceber que não existe uma “doutrina Lula” de pensamento, até porque o tom e o sentido de suas afirmações se alteram conforme o tempo, as dificuldades ou as circunstâncias enfrentadas. Lula sabe mudar de lado e de convicção a depender das conveniências.
Mas Lula ter dito: “Notícia é o que a gente quer esconder; o resto é propaganda”, no ano de 2010, revela uma verdade geral sobre os poderosos.
Por isso, por exemplo, é notícia o contrato de R$ 129 milhões da esposa do ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes com o liquidado Banco Master.
Por isso é notícia, agora, o tanto que a primeira-dama Rosângela da Silva, a Janja, se empenhou pelo desfile da rebaixada escola de samba Acadêmicos de Niterói, inclusive usar jatinho pago com dinheiro público para visitar os preparativos para o desfile.
Ou que foi notícia a família do também ministro do STF, Dias Toffoli, ter sido sócia de um resort luxuoso no Paraná, conforme furo de reportagem deste Estado de S. Paulo.
Também são notícias esses supersalários indevidos no Judiciário e no Ministério Público, de todas as unidades federativas brasileiras – os penduricalhos.
Não é um fenômeno nacional. Para o governo americano, a situação ideal seria que nunca se soubesse de massacres contra civis ocorridos em aldeias vietnamitas perpetrados por tropas de ocupação, nos anos 60.
Foi preciso o repórter Seymour Hersh bisbilhotar documentos, ir atrás de fontes e trazer uma série de crimes à população de seu país (assistam ao excelente documentário sobre o caso, “Em busca da verdade”, na Netflix).
Seria muito melhor para o ex-presidente Bolsonaro que nunca soubéssemos da tentativa de embarcar para os Estados Unidos, em dezembro de 2022, com um cartão falsificado de vacina contra a covid.
O desenrolar dessa trama, registrada no celular de seu ajudante de ordens, foi fundamental para trazer à tona os movimentos que levaram à sua condenação por tentativa de golpe de Estado.
Se dependesse dos poderosos, nada disso estaria à tona.
Sonham com uma paz social na qual a sujeira seja continuamente jogada para debaixo do tapete.
O problema é que um dia tudo isso aparece.
Num primeiro momento, após serem descobertos, escondem-se por trás dos bajuladores de plantão, em geral bastante agressivos contra quem revela o que deveria estar para sempre oculto.
O “Livro vermelho do Lula” mostra um presidente com muitas frases que, aos olhos de hoje, seriam tidas no mínimo como constrangedoras.
Como as que ele se revela machista, antiambientalista, com uma implicância atroz contra a classe estudantil e contra o tipo de política de transferência de renda que lhe deu fama.
Como são frases que Lula e seu entorno, talvez, preferissem que não tivéssemos acesso, se tornam notícia.
Revelam um personagem que, em diversos momentos de sua vida, teve gana de controlar os meios de comunicação – ou seja, para não colocar à luz o que ele próprio considerava notícia.
Opinião por Fabiano Lana, no jornal O Estado de São Paulo.
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