Moro sobre operação que mira o PCC: “Governo Lula é frouxo contra o crime organizado”

A Operação Carbono, deflagrada recentemente pela Polícia Federal em parceria com Ministérios Públicos estaduais e forças de segurança, expôs mais uma faceta da infiltração do PCC no mercado de combustíveis.

O senador Sérgio Moro (União-PR), ex-juiz da Lava Jato e ex-ministro da Justiça, comentou os impactos da operação, a necessidade de medidas mais duras contra organizações criminosas e sua visão sobre o papel do governo federal na segurança pública. Confira a entrevista exclusiva:

Entrelinhas: Nos EUA, facções como cartéis mexicanos já foram classificadas como organizações terroristas. Há quem defenda medida semelhante em relação ao PCC e ao Comando Vermelho no Brasil. Qual sua visão?

Moro: Classificar essas organizações como terroristas pode ser positivo, tanto no efeito prático quanto simbólico. O PCC e o Comando Vermelho já cometeram atentados, execuções e ataques que se enquadrariam nesse conceito. Tivemos, por exemplo, a condenação de Roberto Soriano, alto membro do PCC, que ordenou o assassinato de agentes penitenciários federais. Também não podemos esquecer os atentados de 2006.
Portanto, não podemos descartar essa possibilidade. Há projetos tramitando no Congresso para reconhecer essas facções como terroristas, mas o governo federal resiste — alegando temor de que a lei seja usada contra movimentos sociais. Isso é uma falsa equivalência. Uma coisa é organização criminosa, outra são movimentos civis.

Entrelinhas: O senhor defende a criação de uma agência anti-máfia nos moldes italianos?

Moro: Sim, vejo a proposta como interessante, pois permitiria centralização ou coordenação nacional no enfrentamento ao crime organizado, inspirado na experiência italiana. A ideia partiu da Secretaria Nacional de Segurança Pública, chefiada por Mário Sarrubbo, que foi procurador-geral de Justiça em São Paulo.
Infelizmente, há resistência dentro da Polícia Federal. O atual diretor tem politizado a instituição e se opôs à criação da agência. Isso mostra um problema de vaidade institucional que acaba atrapalhando. Creio que, com mudança de governo, poderemos avançar mais nesse sentido.

Entrelinhas: Recentemente, o governo federal anunciou um plano contra facções criminosas. Isso representa uma guinada na política de segurança ou tem mais relação com o cenário eleitoral de 2026?

Moro: Infelizmente, não acredito que haja compromisso real. O governo Lula sempre teve uma visão leniente, tratando criminosos como “coitadinhos”. Já estamos no terceiro ano de mandato, e só agora falam em uma legislação anti-máfia. Isso deveria ter sido feito desde o início.
No Senado, na Comissão de Segurança Pública, aprovamos vários projetos importantes, mas a resistência sempre vem do governo. Um exemplo foi o veto ao fim das saídas temporárias, que o Congresso precisou derrubar.
Se o projeto vier com propostas positivas, vamos analisar com seriedade. Mas é importante lembrar: quando fui ministro da Justiça, aprovamos leis de confisco de patrimônio das facções, isolamos lideranças e implementamos coleta de DNA de presos.

fonte; Por Mariana Braga

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