{"id":148748,"date":"2020-05-18T13:13:15","date_gmt":"2020-05-18T17:13:15","guid":{"rendered":"https:\/\/mspontocom.com.br\/site\/?p=148748"},"modified":"2020-05-18T13:13:15","modified_gmt":"2020-05-18T17:13:15","slug":"artigo-gaudencio-torquato-o-inverno-de-nossa-desesperanca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mspontocom.com.br\/site\/artigo-gaudencio-torquato-o-inverno-de-nossa-desesperanca\/","title":{"rendered":"Artigo Gaud\u00eancio Torquato:   O INVERNO DE NOSSA DESESPERAN\u00c7A"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-144986\" src=\"https:\/\/mspontocom.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/site-gaudencio-torquato-e1584379446332.jpg\" alt=\"\" width=\"547\" height=\"327\" srcset=\"https:\/\/mspontocom.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/site-gaudencio-torquato-e1584379446332.jpg 547w, https:\/\/mspontocom.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/site-gaudencio-torquato-e1584379446332-260x155.jpg 260w\" sizes=\"auto, (max-width: 547px) 100vw, 547px\" \/><\/p>\n<p>O mspontocom publica semanalmente artigo do professor Gaud\u00eancio Torquato.<\/p>\n<p><strong><em><span style=\"color: #ff0000;\">Gaud\u00eancio Torquato, jornalista, \u00e9 professor titular da USP, consultor pol\u00edtico e de comunica\u00e7\u00e3o<\/span>\u00a0.<\/em><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O t\u00edtulo acima n\u00e3o \u00e9 meu. \u00c9 do cl\u00e1ssico livro de John Steinbeck, publicado em 1961, um ano antes de ele receber o Pr\u00eamio Nobel de Literatura. Que, por sua vez, puxou a express\u00e3o da primeira fase da pe\u00e7a Ricardo III, de Shakespeare. Em sua obra, o magistral escritor norte-americano descreve e interpreta o mundo de um homem atormentado pelos dilemas impostos pelo dinheiro e pela moral, o protagonista Ethan Hawley, empregado de uma mercearia, casado, dois filhos, convivendo em uma comunidade de baleeiros, e atormentado pela ideia de melhorar sua vida e a da fam\u00edlia. At\u00e9 onde v\u00e3o os escr\u00fapulos e a vida digna e honesta quando se trata de conseguir dinheiro? Um ser humano pode suportar a press\u00e3o de seu meio social sem romper com a \u00e9tica da dec\u00eancia?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A l\u00f3gica da pec\u00fania \u00e9 pontuada em tom de desencanto, a traduzir o dilema entre seguir a trilha da ordem moral ou buscar o conforto material para si e os seus. O tema cai bem nesse momento em que o planeta mergulha em uma cat\u00e1strofe que j\u00e1 \u00e9 considerada a maior dos \u00faltimos cem anos. Vive-se um momento em que os valores que permeiam modos e costumes da vida contempor\u00e2nea s\u00e3o todos submetidos ao confession\u00e1rio de nossas consci\u00eancias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Afinal, t\u00eam sentido a competi\u00e7\u00e3o desvairada entre as grandes Na\u00e7\u00f5es, cada qual lutando vorazmente para liderar o ranking dos bens materiais, quando nenhuma delas, com seus arsenais de guerra, consegue vencer um bichinho microsc\u00f3pico, de nome Covid-19? Que adianta angariar grandeza se o poder estratosf\u00e9rico por ela propiciado n\u00e3o consegue sustar a corrente de milh\u00f5es de pessoas infectadas e dar um paradeiro aos milhares de mortos que enchem os cemit\u00e9rios? E o que dizer da pol\u00edtica e de seus conjuntos que disputam assentos nos espa\u00e7os dos Poderes?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quest\u00f5es como essas batem em nossa mente nesse tormentoso outono, a prenunciar um inverno tomado pela desesperan\u00e7a e provavelmente pleno de interroga\u00e7\u00f5es. A t\u00e3o aguardada vacina est\u00e1 chegando ou demorar\u00e1 um ano, dois e at\u00e9 cinco como se l\u00ea na m\u00eddia? O arsenal cient\u00edfico das Na\u00e7\u00f5es n\u00e3o consegue ter resposta convincente? Quanta fragilidade em um mundo dominado por aparatos de poder.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ante uma paisagem deserta de respostas positivas, fenecem as esperan\u00e7as. A ang\u00fastia enche os cora\u00e7\u00f5es de amargura quando nos deparamos com estat\u00edsticas de mortos, valas abertas nos cemit\u00e9rios, pessoas portando m\u00e1scaras nas ruas, flagrantes de um jeito esquisito de viver, coisa sui-generis para as tr\u00eas gera\u00e7\u00f5es. Mais uma imagem desenhada em nossas cabe\u00e7as: a de um portentoso transatl\u00e2ntico que perdeu o comando no meio da borrasca, tentando se equilibrar nas ondas do mar revolto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por nossas \u00e1guas, a sensa\u00e7\u00e3o \u00e9 da falta de rumos. Nossa b\u00fassola perdeu o norte. Na \u00e1rea sanit\u00e1ria, o desastre ocorre todos os dias, com falta de equipamentos para atender as filas gigantescas de contaminados; as UTIs est\u00e3o esgotadas; os her\u00f3is do cotidiano \u2013 m\u00e9dicos e profissionais de enfermagem \u2013 confessam n\u00e3o dar conta da multiplicada demanda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na frente da economia, o pandem\u00f4nio se instala, enquanto o paradoxo emerge com for\u00e7a. Desde o final dos anos 80, com a d\u00e9b\u00e2cle do comunismo liderado pela URSS, alinhou-se a r\u00e9gua econ\u00f4mica do planeta pelo tra\u00e7ado do liberalismo, com as li\u00e7\u00f5es de Friedrich Hayek (economista e fil\u00f3sofo austr\u00edaco, depois naturalizado brit\u00e2nico) e de Milton Friedman. Eles pregam o Estado m\u00ednimo, permitindo maior mobilidade econ\u00f4mica, sem centraliza\u00e7\u00e3o excessiva de decis\u00f5es. Estado que zelaria pelo bom funcionamento do mercado, na esteira de leis de prote\u00e7\u00e3o \u00e0 iniciativa privada. O monetarismo se desenvolve com for\u00e7a a partir da Universidade de Chicago, onde nosso atual guru da economia, Paulo Guedes, fez seus estudos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E quando pens\u00e1vamos ter um governo pautado nessa r\u00e9gua, com a promessa de privatizar cerca de 600 bra\u00e7os do Estado (criou-se at\u00e9 uma Secretaria de Desestatiza\u00e7\u00e3o), eis que estamos na imin\u00eancia de al\u00e7ar ao altar da economia John Maynard Keynes, o economista brit\u00e2nico (1883-1946), que pontuou sobre a necessidade de forte interven\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica do Estado com o objetivo de garantir pleno emprego e controle da infla\u00e7\u00e3o. Nessa dire\u00e7\u00e3o, tateia um designado plano Pr\u00f3-Brasil. Qual ser\u00e1 o porte do Estado brasileiro, sob mando de um ex-capit\u00e3o do Ex\u00e9rcito e cercado de generais?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Afinal, onde estamos, para onde vamos? \u00c0 nossa frente, o risco de queda de 5% do PIB para este ano, com aumento desenfreado do desemprego. E h\u00e1 quem diga que essa pandemia t\u00e3o cedo n\u00e3o desaparecer\u00e1.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Da\u00ed nossa desesperan\u00e7a. Tememos que o vento frio do inverno apague a chama bruxuleante de nossa lamparina.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O mspontocom publica semanalmente artigo do professor Gaud\u00eancio Torquato. Gaud\u00eancio Torquato, jornalista, \u00e9 professor titular da USP, consultor pol\u00edtico e de comunica\u00e7\u00e3o\u00a0. &nbsp; O t\u00edtulo acima n\u00e3o \u00e9 meu. \u00c9 do cl\u00e1ssico livro de John Steinbeck, publicado em 1961, um ano antes de ele receber o Pr\u00eamio Nobel de Literatura. 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