{"id":153195,"date":"2020-11-03T10:01:04","date_gmt":"2020-11-03T14:01:04","guid":{"rendered":"https:\/\/mspontocom.com.br\/site\/?p=153195"},"modified":"2020-11-03T09:06:26","modified_gmt":"2020-11-03T13:06:26","slug":"artigo-gaudencio-torquato-virtudes-para-um-novo-tempo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mspontocom.com.br\/site\/artigo-gaudencio-torquato-virtudes-para-um-novo-tempo\/","title":{"rendered":"Artigo Gaud\u00eancio Torquato: VIRTUDES PARA UM NOVO TEMPO"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-149838\" src=\"https:\/\/mspontocom.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/site-artigo-gaudencio-torquato-reflexoes-na-crise-gaudencio.jpeg\" alt=\"\" width=\"620\" height=\"445\" srcset=\"https:\/\/mspontocom.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/site-artigo-gaudencio-torquato-reflexoes-na-crise-gaudencio.jpeg 620w, https:\/\/mspontocom.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/site-artigo-gaudencio-torquato-reflexoes-na-crise-gaudencio-260x187.jpeg 260w\" sizes=\"auto, (max-width: 620px) 100vw, 620px\" \/><\/p>\n<p>O mspontocom apresenta semanalmente artigo do professor Gaud\u00eancio Torquato.<\/p>\n<p><strong><em>Gaud\u00eancio Torquato, jornalista, \u00e9 professor titular da USP, consultor pol\u00edtico e de comunica\u00e7\u00e3o\u00a0<a href=\"mailto:Twitter@gaudtorquato\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Twitter@gaudtorquato<\/a><\/em><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tempos de turbul\u00eancia, tempos nervosos, ciclo do medo, paisagens mortu\u00e1rias e locupletadas de doentes, aqui, ali e nas lonjuras do planeta. Hora da grande reflex\u00e3o: o que tenho, o que sou e o que serei nesse novo mundo que ainda n\u00e3o mostrou de todo a cara? A reflex\u00e3o de hoje \u00e9 uma estreita vereda por onde podemos passar, sob a cren\u00e7a de que todo esfor\u00e7o se far\u00e1 necess\u00e1rio para lapidarmos valores e virtudes ou mesmo tentarmos adquiri-las.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E n\u00e3o podemos perder tempo. S\u00eaneca, o s\u00e1bio, ao escrever sobre a brevidade da vida, ensina:<em>\u00a0&#8220;N\u00e3o \u00e9 curto o tempo que temos, mas dele muito perdemos. A vida \u00e9 suficientemente longa e com generosidade nos foi dada, para a realiza\u00e7\u00e3o das maiores coisas, se a empregamos bem. Mas quando ela se esvai no luxo e na indiferen\u00e7a, quando n\u00e3o a empregamos em nada de bom, ent\u00e3o, finalmente, constrangidos pela fatalidade, sentimos que ela j\u00e1 passou por n\u00f3s sem que tiv\u00e9ssemos percebido&#8221;.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Saber administrar o tempo \u00e9, hoje, um dos desafios instigantes do nosso cotidiano. O tempo n\u00e3o se mata. &#8220;<em>Quem mata tempo \u00e9 suicida&#8221;<\/em>, satirizava Mill\u00f4r Fernandes. A reprimenda parte tamb\u00e9m do dramaturgo ingl\u00eas H.D. Thoreau<em>: &#8220;Como se fosse poss\u00edvel matar o tempo sem ferir a eternidade&#8221;.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">M\u00e3os \u00e0 obra. Tempos de prud\u00eancia, que os est\u00f3icos consideravam \u201ca ci\u00eancia das coisas a fazer e a n\u00e3o fazer\u201d, e que sup\u00f5e o risco, a incerteza, o acaso, o desconhecido. Andr\u00e9-Comte Sponville lembra bem, quando diz que a prud\u00eancia sugere a \u00e9tica da convic\u00e7\u00e3o ou, ainda, a \u00e9tica da responsabilidade, nos termos de Max Weber. Somos impelidos a responder por nossos atos e por suas consequ\u00eancias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao lado da prud\u00eancia, imp\u00f5e-se a virtude da modera\u00e7\u00e3o, t\u00e3o importante nesses tempos agressivos que estamos presenciando. N\u00e3o exagerar, n\u00e3o romper os limites de nossas identidades, desfrutar livremente da pr\u00f3pria liberdade, contentar-se com pouco ou com o estritamente necess\u00e1rio, sem arroubos e extravag\u00e2ncias que acabam roubando nosso estoque de bom senso. J\u00e1 a intemperan\u00e7a, dizia Montaigne, \u00e9 \u201ca peste da vol\u00fapia\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tempos de pavonice, tempos de alta visibilidade, de desfiles canhestros na m\u00eddia para chamar a aten\u00e7\u00e3o de espectadores e ouvintes. Tempos de Lu\u00eds XIV, que desfilava em Versailles em seu cavalo branco adornado de diamantes. Tempos do Estado-Espet\u00e1culo, onde atores e atrizes da pol\u00edtica desfilam vaidades. Da\u00ed desponta o valor da humildade, que Sponville designa como \u201ca virtude do homem que sabe n\u00e3o ser Deus\u201d. Humildade, de \u201ch\u00famus\u201d (terra), quer significar que somos filhos da terra. Os mais generosos costumam ser os mais humildes pela miseric\u00f3rdia e compaix\u00e3o de seu car\u00e1ter.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tempos de dureza, de not\u00edcias tristes, pesadelos, \u00f3dio, com os opostos se matando nas arenas de vingan\u00e7a. N\u00e3o \u00e9 hora de criarmos um contraponto a esses tempos de desdita e maldi\u00e7\u00e3o? Leiamos \u00cdtalo Calvino em Seis Propostas para o Pr\u00f3ximo Mil\u00eanio<em>, ao citar Leopardo ante o insustent\u00e1vel peso de viver: \u201cimagens de extrema leveza, como os p\u00e1ssaros, a voz de uma mulher que canta na janela, a transpar\u00eancia do ar e, sobretudo, a lua\u201d.<\/em>\u00a0Tentemos viver de modo mais leve, suave, evitando rompantes e atitudes tresloucadas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tempos de injusti\u00e7a, de acusa\u00e7\u00f5es mal\u00e9volas, de\u00a0<em>fake news<\/em>\u00a0constru\u00eddas para sujar a imagem de advers\u00e1rios. Ent\u00e3o, busquemos a deusa T\u00eamis, com sua balan\u00e7a e os dois pratos em equil\u00edbrio, apontam para o estado da ordem e da igualdade. Dizia Kant:\u00a0<em>\u201c\u00e9 justa toda a\u00e7\u00e3o, cuja m\u00e1xima permite que a livre vontade de qualquer um coexista com a liberdade de qualquer outro, segundo uma lei universal<\/em>\u201d. Sim, a justi\u00e7a \u00e9 a vontade de se atribuir a cada um o que lhe cabe.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma virtude leva \u00e0 outra. A justi\u00e7a se liga aos atos de boa f\u00e9, \u00e0 sinceridade, \u00e0 verdade. A boa f\u00e9 suscita reconhecimento \u00e0s qualidades humanas, sem exageros, na vers\u00e3o das Escrituras:\u00a0<em>nem um homem \u00e9 capaz de acrescentar um palmo \u00e0 sua altura<\/em>. \u00c9 o que \u00e9, nos moldes da constru\u00e7\u00e3o divina. Tal verdade sugere afastar a gabolice, o estilo fanfarr\u00e3o, a dissimula\u00e7\u00e3o, a arte de enganar. Todos devemos aspirar fidelidade ao que \u00e9 verdadeiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por fim, cultivar o amor. Amar o pr\u00f3ximo deve significar praticar todos os deveres para com ele. Amar os entes queridos, praticar boas a\u00e7\u00f5es, eliminar eventuais doses de \u00f3dio que chegam nas ondas de intensa polariza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Nietzsche anunciava:\u00a0<em>\u201co que fazemos por amor se consuma al\u00e9m do bem e do mal\u201d.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O mspontocom apresenta semanalmente artigo do professor Gaud\u00eancio Torquato. Gaud\u00eancio Torquato, jornalista, \u00e9 professor titular da USP, consultor pol\u00edtico e de comunica\u00e7\u00e3o\u00a0Twitter@gaudtorquato &nbsp; Tempos de turbul\u00eancia, tempos nervosos, ciclo do medo, paisagens mortu\u00e1rias e locupletadas de doentes, aqui, ali e nas lonjuras do planeta. 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