{"id":155059,"date":"2020-12-29T09:45:38","date_gmt":"2020-12-29T13:45:38","guid":{"rendered":"https:\/\/mspontocom.com.br\/site\/?p=155059"},"modified":"2020-12-29T07:49:03","modified_gmt":"2020-12-29T11:49:03","slug":"artigo-gaudencio-torquato-a-vida-e-breve","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mspontocom.com.br\/site\/artigo-gaudencio-torquato-a-vida-e-breve\/","title":{"rendered":"Artigo Gaud\u00eancio Torquato:  A VIDA \u00c9 BREVE"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-155060\" src=\"https:\/\/mspontocom.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/site-gaudencio-torquato-no-ponto-a-ponto-deste-sabado-231-748x410-1-e1609242493486.jpg\" alt=\"\" width=\"626\" height=\"381\" srcset=\"https:\/\/mspontocom.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/site-gaudencio-torquato-no-ponto-a-ponto-deste-sabado-231-748x410-1-e1609242493486.jpg 626w, https:\/\/mspontocom.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/site-gaudencio-torquato-no-ponto-a-ponto-deste-sabado-231-748x410-1-e1609242493486-260x158.jpg 260w\" sizes=\"auto, (max-width: 626px) 100vw, 626px\" \/><\/p>\n<p>O mspontocom publica semanalmente artigo do professor Gaud\u00eancio Torquato.<\/p>\n<p><strong><em>Gaud\u00eancio Torquato, jornalista, \u00e9 professor titular da USP, consultor pol\u00edtico e de comunica\u00e7\u00e3o\u00a0<a href=\"mailto:Twitter@gaudtorquato\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Twitter@gaudtorquato<\/a><\/em><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00eaneca, o fil\u00f3sofo que nasceu em C\u00f3rdova, na Espanha, no ano I a.C, alertava:\u00a0<em>\u201cn\u00e3o \u00e9 curto o tempo que temos, mas dele muito perdemos. A vida \u00e9 suficientemente longa e com generosidade nos foi dada, para a realiza\u00e7\u00e3o das maiores coisas, se a empregamos bem. Mas, quando ela se esvai no luxo e na indiferen\u00e7a, quando n\u00e3o a empregamos em nada de bom, ent\u00e3o, finalmente constrangidos pela fatalidade, sentimos que j\u00e1 passou por n\u00f3s sem que tiv\u00e9ssemos percebido. O fato \u00e9 o seguinte: n\u00e3o recebemos uma vida breve, mas a fazemos, nem somos dela carentes, mas esbanjadores\u201d.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Motivo-me, mais uma vez, a deixar de lado a an\u00e1lise pol\u00edtica, tarefa cumprida na minha coluna semanal Porandubas, no site Migalhas, para percorrer o labirinto da consci\u00eancia e tentar ver como deixei a vida passar sem ter percebido. E o que me leva a esse exerc\u00edcio? A sensa\u00e7\u00e3o de que, no meio (ou ainda no in\u00edcio?) do furac\u00e3o desencadeado por esse medonho Covid-19, a vida pode me escapar num \u00e1timo de segundo, a mostrar que a eternidade est\u00e1 ali, a um palmo na nossa frente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E como tenho percebido os dribles que, em alguns momentos, me fazem pensar que continuo portando o vigor da adolesc\u00eancia, a capacidade mim\u00e9tica de me adaptar aos sabores e dissabores da vida? \u00c9 f\u00e1cil constatar. Basta ir ao espelho e ver que o tufo de cabelo encompridando a cabe\u00e7a deu adeus, criando duas entradas profundas na testa e abrindo uma seca v\u00e1rzea no cocuruto. Ainda bem que a carequice n\u00e3o tem avan\u00e7ado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fossem essas observa\u00e7\u00f5es est\u00e9ticas as \u00fanicas maneiras de constatar que a adolesc\u00eancia se escondeu no ba\u00fa de mem\u00f3rias, os sentimentos n\u00e3o seriam t\u00e3o doloridos. Mas h\u00e1 vazios mais profundos. A percep\u00e7\u00e3o de que eu poderia ter conversado mais com meu pai, que nasceu no final do final do s\u00e9culo XIX, foi autodidata, pol\u00edtico, fazendeiro e, sobretudo, uma pessoa que acolhia bem os mais carentes. O sil\u00eancio estava ali ao nosso redor, mesmo que ele tivesse mil perguntas a fazer ao filho que s\u00f3 o via nas f\u00e9rias. Podia ter aprendido mais com ele naqueles tempos de muito trabalho, honra \u00e0 palavra dada, compromisso com a verdade, zelo pelas coisas. Meu pai amolava a gilete com que se barbeava numa pedra sab\u00e3o. Objeto descart\u00e1vel? Jamais teve conhecimento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A amizade \u00e9 a cola da fraternidade e da solidariedade. Os amigos fazem brotar os valores do compartilhamento e de uma sociedade mais convivencial. E o que ficou deles? A dist\u00e2ncia f\u00edsica quebra elos, a rotina do cotidiano com muito trabalho cria oceanos entre os amigos, os la\u00e7os de amizade v\u00e3o se esgar\u00e7ando e se desmanchando. Percebo que deixei a vida se esvair por essas frestas de distanciamento, ao cortar contatos, ao esquecer nossos caminhos encruzilhados no passado, ao entrar na corrida pela competitividade, reconhecendo que essas decis\u00f5es podem ter corro\u00eddo a humanidade que nos habita.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cOlhe a r\u00e9gua, olhe a r\u00e9gua\u201d, sempre nos alertava o amigo Vanderlei, famoso neurocirurgi\u00e3o, natural da Para\u00edba e hoje tamb\u00e9m habitante destas plagas paulistas. E mostrava: at\u00e9 aqui, a r\u00e9gua marca 50, apontando para o meio. Quando passa daqui, a r\u00e9gua costuma apressar o tempo. Pois n\u00e3o \u00e9 que me lembro dessa r\u00e9gua quase todos os dias e vejo que o tempo corre? A vida \u00e9 mesmo breve. Parece que o alerta da r\u00e9gua foi ontem. Mas faz mais de duas d\u00e9cadas. O que deixei mais de fazer?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ler mais. Sou um bom leitor de livros. Mas poderia ter usado o tempo com mais leituras, mais reflex\u00f5es. E a escrita? Ah, nessa \u00e1rea, sob minha absoluta cren\u00e7a, tenho feito o poss\u00edvel. A ponto de ser cobrado com juros e corre\u00e7\u00e3o monet\u00e1ria pelo exerc\u00edcio de ficar horas e horas \u00e0 frente de um teclado de computador ou, nos idos de ontem, teclando numa velha m\u00e1quina de escrever. E que juros s\u00e3o esses? Uma coluna arrebentada, com achatamento e compress\u00e3o de v\u00e9rtebras, dores nas articula\u00e7\u00f5es, enfim, essa heran\u00e7a transmitida por ficar sentado numa cadeira o dia inteiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Constrangido pela fatalidade, como diz o pux\u00e3o de orelhas de S\u00eaneca, sinto que poderia ter sido mais comedido, com o bom senso de alternar os movimentos do corpo. As coisas ruins se passaram sem que tivesse percebido ou, mesmo percebidas, foram continuadas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Talvez seja por isso que os velhos \u00e1lbuns do passado tenham hoje tanta significa\u00e7\u00e3o. Pois permitem que vejamos nossos corpos sem barrigas salientes, mais apol\u00edneos e menos dionis\u00edacos, tufo de cabelo na testa e sem jamais imaginar que, um dia, o danadinho de um v\u00edrus fosse capaz de atazanar nossas vidas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O mspontocom publica semanalmente artigo do professor Gaud\u00eancio Torquato. Gaud\u00eancio Torquato, jornalista, \u00e9 professor titular da USP, consultor pol\u00edtico e de comunica\u00e7\u00e3o\u00a0Twitter@gaudtorquato &nbsp; S\u00eaneca, o fil\u00f3sofo que nasceu em C\u00f3rdova, na Espanha, no ano I a.C, alertava:\u00a0\u201cn\u00e3o \u00e9 curto o tempo que temos, mas dele muito perdemos. 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