{"id":157178,"date":"2021-03-01T13:47:39","date_gmt":"2021-03-01T17:47:39","guid":{"rendered":"https:\/\/mspontocom.com.br\/site\/?p=157178"},"modified":"2021-03-01T13:10:51","modified_gmt":"2021-03-01T17:10:51","slug":"artigo-gaudencio-torquato-o-fim-do-anonimato","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mspontocom.com.br\/site\/artigo-gaudencio-torquato-o-fim-do-anonimato\/","title":{"rendered":"Artigo Gaud\u00eancio Torquato:   O FIM DO ANONIMATO"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-157179\" src=\"https:\/\/mspontocom.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/site-gaudencio-torquato-no-ponto-a-ponto-deste-sabado-231-748x410-e1614618599671.jpg\" alt=\"\" width=\"618\" height=\"377\" srcset=\"https:\/\/mspontocom.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/site-gaudencio-torquato-no-ponto-a-ponto-deste-sabado-231-748x410-e1614618599671.jpg 618w, https:\/\/mspontocom.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/site-gaudencio-torquato-no-ponto-a-ponto-deste-sabado-231-748x410-e1614618599671-260x159.jpg 260w\" sizes=\"auto, (max-width: 618px) 100vw, 618px\" \/><\/p>\n<p>O mspontocom publica semanalmente artigo do professor Gaud\u00eancio Torquato.<\/p>\n<p><strong><em>Gaud\u00eancio Torquato, jornalista, \u00e9 professor titular da USP, consultor pol\u00edtico e de comunica\u00e7\u00e3o\u00a0<a href=\"mailto:Twitter@gaudtorquato\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Twitter@gaudtorquato<\/a><\/em><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A sociedade de massas est\u00e1 chegando ao seu fim, sob o rolo compressor das mudan\u00e7as que ocorrem em todos os campos da vida humana. Mesmo se descobrindo, aqui e ali, casos de trabalho escravo, que lembram a era dos feudos, dos imp\u00e9rios e das col\u00f4nias, com a opress\u00e3o sobre seres humanos, os nossos tempos s\u00e3o marcados por defesa de direitos, maior autonomia individual e coletiva, aspira\u00e7\u00e3o de felicidade. O tac\u00e3o dos colonizadores \u00e9 substitu\u00eddo pela chama libert\u00e1ria. E a tend\u00eancia \u00e9 a de consolida\u00e7\u00e3o de uma comunidade pol\u00edtica, onde os an\u00f4nimos na multid\u00e3o assumam suas identidades, sob a \u00e9gide da igualdade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os franceses designam esse fen\u00f4meno como \u201cautogest\u00e3o t\u00e9cnica\u201d, com a qual os cidad\u00e3os passam a pautar suas vidas de acordo com o lema \u201csei o que quero e conhe\u00e7o os meios para chegar l\u00e1.\u201d Portanto, aquele velho chav\u00e3o do \u201cMaria vai com as outras\u201d, com seu vi\u00e9s discriminat\u00f3rio, \u00e9 enterrado para dar lugar \u00e0 era da express\u00e3o individual e grupal. \u00c9 evidente que esse atributo da comunidade pol\u00edtica \u00e9\u00a0 identificado no seio dos sistemas democr\u00e1ticos, n\u00e3o nos t\u00faneis escuros de ditaduras opressoras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para se chegar a este est\u00e1gio, a sociedade planet\u00e1ria navegou por mares turbulentos. Padeceu sob a ferocidade de duas guerras mundiais, vivenciou mortic\u00ednios realizados por governantes sanguinolentos, passou pelos longos corredores das endemias e pandemias, como esta que hoje assola a Humanidade, experimentou uma infinidade de tipos de governos, at\u00e9 encontrar, aos trancos e barrancos, o sistema que impregna as na\u00e7\u00f5es mais desenvolvidas, a democracia. E esta, como se sabe, tamb\u00e9m atravessa uma crise cr\u00f4nica, a partir dos eixos corro\u00eddos que a sustentam, como os partidos, as bases, os Parlamentos e seus componentes, os Poderes Executivo, Legislativo e Judici\u00e1rio etc.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O cerne da quest\u00e3o reside nos ide\u00e1rios que, ao longo dos tempos, t\u00eam impregnado as sociedades, como o liberalismo, o comunismo, o socialismo, e os afluentes que abriram, como a social-democracia, o neoliberalismo, o social-liberalismo e afins. O fato \u00e9 que, ap\u00f3s a queda do Muro de Berlim, em 1989, viu-se a acelera\u00e7\u00e3o do fen\u00f4meno da desideologiza\u00e7\u00e3o e a emerg\u00eancia do pragmatismo nas fronteiras da pol\u00edtica. O arrefecimento ideol\u00f3gico deflagrou a queda da primeira pedra do domin\u00f3, respons\u00e1vel pela derrubada das outras pedras do jogo: partidos amalgamados, representantes desacreditados, bases desmotivadas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesse ponto, voltamos ao in\u00edcio da reflex\u00e3o. A satura\u00e7\u00e3o de velhas f\u00f3rmulas entupiu os pulm\u00f5es do conv\u00edvio social. Forte indigna\u00e7\u00e3o \u2013 mistura de descr\u00e9dito, \u00f3dio, grito preso na garganta, expans\u00e3o de demandas nos servi\u00e7os p\u00fablicos &#8211; acendeu o pavio dos novos grupamentos, que, por sua vez,\u00a0 fincaram estacas por todos os lados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Explico. Sem confian\u00e7a na pol\u00edtica e em seus agentes, os eleitores passaram a enxergar representantes com olhos de desprezo e cobran\u00e7a por quebra de compromisso. \u201cCandidatos? Ah, s\u00f3 aparecem de quatro em quatro anos\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Criou-se imenso deserto entre os pol\u00edticos e as bases. O vazio passou a ser ocupado por novos centros de poder, um conglomerado de entidades com ra\u00edzes em categorias profissionais, g\u00eaneros, ra\u00e7a e etnias. As minorias passaram a se mostrar e a exibir poder de gritar sua indigna\u00e7\u00e3o. Sindicatos, federa\u00e7\u00f5es e confedera\u00e7\u00f5es, grupos, n\u00facleos e movimentos formam esse mural que, agora, reivindica voz e vez para se posicionar na pol\u00edtica. No Brasil, h\u00e1 cerca de um milh\u00e3o de organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o governamentais, que fazem press\u00e3o de l\u00e1 para c\u00e1, das margens para o centro. Constituem as bases e as colunas da democracia participativa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa \u00e9 a nova realidade na pol\u00edtica contempor\u00e2nea. Se cada pessoa passa a ser identificada nas ruas por c\u00e2meras poderosas e invis\u00edveis, \u00e9 sinal que se chega ao final da era do anonimato. A pol\u00edtica depender\u00e1 cada vez mais de cidad\u00e3os que n\u00e3o admitem ser apenas n\u00fameros. Ou, parafraseando John Stuart Mill, que Bobbio cita em Considera\u00e7\u00f5es sobre governo representativo:\u00a0<em>\u201ch\u00e1 cidad\u00e3os ativos e passivos. Os governantes preferem os segundos, mas a democracia necessita dos primeiros. Se prevalecessem os segundos, os governantes acabariam por transformar seus s\u00faditos em um bando de ovelhas dedicadas t\u00e3o somente a pastar o capim e a n\u00e3o reclamar nem mesmo quando o capim for escasso\u201d.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O mspontocom publica semanalmente artigo do professor Gaud\u00eancio Torquato. Gaud\u00eancio Torquato, jornalista, \u00e9 professor titular da USP, consultor pol\u00edtico e de comunica\u00e7\u00e3o\u00a0Twitter@gaudtorquato &nbsp; A sociedade de massas est\u00e1 chegando ao seu fim, sob o rolo compressor das mudan\u00e7as que ocorrem em todos os campos da vida humana. 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