{"id":157415,"date":"2021-03-08T13:35:47","date_gmt":"2021-03-08T17:35:47","guid":{"rendered":"https:\/\/mspontocom.com.br\/site\/?p=157415"},"modified":"2021-03-08T13:35:47","modified_gmt":"2021-03-08T17:35:47","slug":"artigo-gaudencio-torquato-os-oportunistas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mspontocom.com.br\/site\/artigo-gaudencio-torquato-os-oportunistas\/","title":{"rendered":"Artigo Gaud\u00eancio Torquato:   OS OPORTUNISTAS"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-157416\" src=\"https:\/\/mspontocom.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/site-artigo-gaudencio-torquato-os-oportunistas-gaudencio-torquato-no-ponto-a-ponto-deste-sabado-231-748x410.jpg\" alt=\"\" width=\"748\" height=\"410\" srcset=\"https:\/\/mspontocom.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/site-artigo-gaudencio-torquato-os-oportunistas-gaudencio-torquato-no-ponto-a-ponto-deste-sabado-231-748x410.jpg 748w, https:\/\/mspontocom.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/site-artigo-gaudencio-torquato-os-oportunistas-gaudencio-torquato-no-ponto-a-ponto-deste-sabado-231-748x410-260x143.jpg 260w\" sizes=\"auto, (max-width: 748px) 100vw, 748px\" \/>O mspontocom publica semanalmente artigo do professor Gaud\u00eancio Torquato.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Gaud\u00eancio Torquato, jornalista, \u00e9 professor titular da USP, consultor pol\u00edtico e de comunica\u00e7\u00e3o\u00a0<a href=\"mailto:Twitter@gaudtorquato\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Twitter@gaudtorquato<\/a><\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Crise, no ideograma japon\u00eas, tem o mesmo significado de oportunidade. Donde se extrai a ideia de que as crises deveriam abrir novos caminhos, oferecer solu\u00e7\u00f5es criativas aos problemas. Esta tem sido a li\u00e7\u00e3o de empreendedores, perfis de vis\u00e3o sobre os afazeres do cotidiano, principalmente no que se refere ao mundo dos neg\u00f3cios. Entre n\u00f3s, \u00e9 bastante propalado o ditado \u201cfazer do lim\u00e3o uma limonada\u201d, transformar o que \u00e9 negativo em positivo, sair da tempestade para a bonan\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para muitos povos, o preceito funciona bem, gra\u00e7as a uma cultura forjada em experi\u00eancias sofridas, tempos amargos, car\u00eancias monumentais, para as quais se criaram respostas e alternativas, muitas exigindo sacrif\u00edcios e mudan\u00e7a em estilos de vida. Conta-se, por exemplo, que o japon\u00eas, de tanto padecer as agruras de guerras, n\u00e3o costuma deixar sobras no prato. Um \u00faltimo gr\u00e3o de arroz na bacia \u00e9 agarrado com vontade e gosto pelos dois pauzinhos manejados com mestria. Os anglo-sax\u00f5es tamb\u00e9m aprendem a n\u00e3o desperdi\u00e7ar tempo. E a responder sim ou n\u00e3o, em atendimento a uma equa\u00e7\u00e3o que n\u00e3o permite dar uma resposta sem responder.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 o talvez, mais ou menos, quem sabe, se encaixam bem em nossa cultura, onde a exatid\u00e3o n\u00e3o passa pelo teste, a concis\u00e3o costuma seguir veredas sinuosas, de curvas e buracos. Em Petrolina, at\u00e9 hoje, n\u00e3o se encontrou uma gota de petr\u00f3leo e a venerada Bahia de Todos os Santos, sob o olhar complacente de Jorge Amado, tem mais jeito de baia de todos os pecados. O senhor \u00e9 cat\u00f3lico\u201d? \u201cSim, mas n\u00e3o vou \u00e0 missa aos domingos\u201d. \u201cQuantas horas o senhor trabalha por semana?\u201d. \u201cMais ou menos umas 40 horas\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A flexibilidade \u00e9 um tra\u00e7o do nosso car\u00e1ter, ali\u00e1s, um valor positivo, mas usado para \u201camaciar\u201d situa\u00e7\u00f5es. Do trabalho duro muitos fogem. \u00c9 comum se ouvir: \u201choje, trabalhei demais; estou arrebentado\u201d. Nosso DNA \u00e9 cultivado na festa, no divertimento. O gordo Ascenso Ferreira, poeta pernambucano, parodiava:\u00a0<em>\u201cHora de comer \u2013 comer. Hora de dormir- dormir. Hora de vadiar \u2013 vadiar. Hora de trabalhar? Pernas pro ar que ningu\u00e9m \u00e9 de ferro\u201d.<\/em>\u00a0O chiste corre solto. Vejam o discurso do brigadeiro Eduardo Gomes, no largo da Carioca, em seu primeiro com\u00edcio da campanha presidencial de 1946.\u00a0<em>\u201cBrasileiros, precisamos trabalhar\u201d.<\/em>\u00a0Do meio do pov\u00e3o, uma voz gritou:\u00a0<em>\u201cIh, come\u00e7ou a persegui\u00e7\u00e3o\u201d<\/em>. Bagun\u00e7a geral no com\u00edcio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O fato \u00e9 que a flexibilidade e a express\u00e3o jocosa impregnam a \u00edndole brasileira, conforme nos ensina um analista de nossa alma, Roberto DaMatta. N\u00e3o por acaso, nesse momento de pico da pandemia, com ondas que matam milhares de brasileiros de todas as idades, ainda se criam piadas envolvendo protagonistas diversos, a partir dos governantes. Alguns ganham apelidos e trocadilhos infames e ris\u00edveis. Como uma gente que aprecia tanto a galhofa pode tomar atitudes racionais, s\u00e9rias, adotar comportamentos condizentes com a gravidade desse momento?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esclare\u00e7amos. A comunidade nacional costuma entrar no terreno da express\u00e3o desrespeitosa quando se sente ludibriada. Mas essa corrente \u00e9 alimentada por um grupo que invade as redes sociais para exacerbar o comportamento social. Motivam leitores e ouvintes a privilegiar o improp\u00e9rio. Mais: os protagonistas pol\u00edticos se aproveitam do clima para cantar hosanas e adornar seu ego, ampliando a visibilidade, emitindo opini\u00f5es estapaf\u00fardias, enfim, tentando compor uma identidade que n\u00e3o possuem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alguns s\u00e3o capazes de mudar de vis\u00e3o quando convidados a aparecer em programas de r\u00e1dio e TV, de alta audi\u00eancia. Participam de debates para aparecer, dar recados ao eleitor, pronunciando-se a favor ou contra, por\u00e9m sempre com o sentido de fazer marketing. A polariza\u00e7\u00e3o de ideias n\u00e3o se ampara em bases racionais, mas emotivas, frouxas, com carimbo populista. O representante quer ser popular.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse v\u00edcio joga os pol\u00edticos no loda\u00e7al do oportunismo. Nesse ponto, voltemos ao in\u00edcio do texto. N\u00e3o se faz da crise um exerc\u00edcio de busca de oportunidades, mas uma chance para oportunistas marcarem seus nomes na hist\u00f3ria. Esquecem, por\u00e9m, que exibem na testa a marca de med\u00edocres, figuras de baixa express\u00e3o, mercadores de benef\u00edcios e recompensas. A dignidade n\u00e3o os conhece.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Do escritor argentino Jos\u00e9 Ingenieros, em\u00a0<em>O Homem Med\u00edocre:\u00a0&#8220;Ser digno significa n\u00e3o pedir o que se merece: nem aceitar o imerecido. Enquanto os servis sobem, por entre as malhas do favoritismo, os austeros ascendem pela escadaria das suas virtudes\u201d.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O mspontocom publica semanalmente artigo do professor Gaud\u00eancio Torquato. Gaud\u00eancio Torquato, jornalista, \u00e9 professor titular da USP, consultor pol\u00edtico e de comunica\u00e7\u00e3o\u00a0Twitter@gaudtorquato Crise, no ideograma japon\u00eas, tem o mesmo significado de oportunidade. Donde se extrai a ideia de que as crises deveriam abrir novos caminhos, oferecer solu\u00e7\u00f5es criativas aos problemas. 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