{"id":169502,"date":"2022-04-04T09:02:08","date_gmt":"2022-04-04T13:02:08","guid":{"rendered":"https:\/\/mspontocom.com.br\/site\/?p=169502"},"modified":"2022-04-04T09:02:08","modified_gmt":"2022-04-04T13:02:08","slug":"artigo-gaudencio-torquato-um-novo-coronelismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mspontocom.com.br\/site\/artigo-gaudencio-torquato-um-novo-coronelismo\/","title":{"rendered":"Artigo Gaud\u00eancio Torquato :  UM NOVO CORONELISMO?"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-169503\" src=\"https:\/\/mspontocom.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/site-gaudencio.jpeg\" alt=\"\" width=\"620\" height=\"445\" srcset=\"https:\/\/mspontocom.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/site-gaudencio.jpeg 620w, https:\/\/mspontocom.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/site-gaudencio-260x187.jpeg 260w\" sizes=\"(max-width: 620px) 100vw, 620px\" \/><\/p>\n<p>O mspontocom publica semanalmente artigo do professor Gaud\u00eancio Torquato.<\/p>\n<p><strong><em>Gaud\u00eancio Torquato \u00e9 jornalista, escritor, professor titular da USP e consultor pol\u00edtico\u00a0<a href=\"mailto:Twitter@gaudtorquato\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Twitter@gaudtorquato<\/a><\/em><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No Brasil, o passado \u00e9 sempre revisitado. E com direito a reviver h\u00e1bitos, mesmo os p\u00e9rfidos. \u00c9 o caso do coronelismo dos anos 30, do ciclo agr\u00edcola, que castigava o livre exerc\u00edcio dos direitos pol\u00edticos. Os velhos coron\u00e9is da Primeira Rep\u00fablica (1889-1930) consideravam os eleitores como s\u00faditos, n\u00e3o como cidad\u00e3os. Criavam feudos dentro do Estado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A autoridade constitu\u00edda esbarrava na porteira das fazendas. Agora, neste Pa\u00eds urbano, principalmente em alguns recantos, as autoridades precisam pedir licen\u00e7a para subir morros. O imp\u00e9rio coronelista do princ\u00edpio do s\u00e9culo passado finca ra\u00edzes no ro\u00e7ado do Rio de Janeiro. O pr\u00f3prio ex-ministro da Defesa, general Braga Netto, que acaba de deixar o Minist\u00e9rio para se habilitar a ser vice na chapa de Bolsonaro, j\u00e1 chefiou tropas no RJ com o fito de dominar o imp\u00e9rio miliciano. Pouco conseguiu. entra um, sai outro, e os grupos \u201cdonos de votos de cabresto\u201d est\u00e3o sempre agindo. Nesse ano, a polariza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica deve incrementar essa modalidade eleitoral.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As den\u00fancias afloram: comunidades de muitas cidades do segundo maior col\u00e9gio eleitoral do Pa\u00eds chegam a ser dominadas por mil\u00edcias, quadrilhas comandadas por policiais que amea\u00e7am pessoas que n\u00e3o elegem seus candidatos. E por mais que for\u00e7as policiais entrem em a\u00e7\u00e3o, milicianos posam com seus fuzis e desafiam o poder constitu\u00eddo. O assassinato da vereadora Marielle Franco continua coberto de mist\u00e9rios.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em plena segunda d\u00e9cada do s\u00e9culo XXI, vivemos tempos de um novo coronelismo. Desta feita, at\u00e9 parece que os nossos governantes aprovam a corrente neocoronelista. Para recordar, o \u00a0voto de cabresto, pr\u00e1tica fraudulenta dos tempos da velha Rep\u00fablica, transfere-se ao dom\u00ednio de comandantes de mil\u00edcias, personagens da urbe violenta que se valem da inseguran\u00e7a para implantar o medo. Os currais eleitorais s\u00e3o comunidades miser\u00e1veis, comprimidas em morros, favelas e bairros degradados, onde o poder bandido monta formid\u00e1vel aparato.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0A mudan\u00e7a da identidade nacional pouco tem contribu\u00eddo para a altera\u00e7\u00e3o do mapa pol\u00edtico. Nos \u00faltimos 70 anos, a popula\u00e7\u00e3o urbana cresceu, no Pa\u00eds, de 30% para 80%, agigantando cidades, expandindo demandas, e propiciando a continua\u00e7\u00e3o de v\u00edcios, dentre eles o voto por encomenda. \u00c9 verdade que mudan\u00e7as sociais e pol\u00edticas, a partir das d\u00e9cadas de 30 e 40, contribu\u00edram para melhorar a participa\u00e7\u00e3o do povo no processo eleitoral. Mas n\u00e3o se pode negar a imensa dist\u00e2ncia, hoje muito percept\u00edvel, entre a fortaleza econ\u00f4mica e a nossa fr\u00e1gil estrutura pol\u00edtica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O bi\u00f3logo franc\u00eas Louis Couty dizia, em 1881, que \u201co Brasil n\u00e3o tem povo\u201d. Seu argumento era que, dos 12 milh\u00f5es de habitantes da \u00e9poca, poucos eram os eleitores capazes de impor ao governo uma dire\u00e7\u00e3o definida. Uma raz\u00e3o para explicar nossa incultura pol\u00edtica \u00e9 a equa\u00e7\u00e3o que soma componentes como pobreza educacional das massas, perversa disparidade de renda entre classes, sistema pol\u00edtico resistente \u00e0s mudan\u00e7as, sistema de governo &#8211; hiper-presidencialismo de cunho imperial &#8211; e patroc\u00ednio de mazelas hist\u00f3ricas, entre as quais reinam o patrimonialismo e o assistencialismo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A concentra\u00e7\u00e3o de for\u00e7as permanece sob a \u00e9gide do Estado todo-poderoso, bem duro na fun\u00e7\u00e3o de cobrador de impostos, eixo repressor, distribuidor de favores e com poder de definir os destinos da sociedade. O corol\u00e1rio deste modelo se expressa no conceito de \u201cestadania\u201d em contraposi\u00e7\u00e3o \u00e0 \u201ccidadania\u201d, cultura orientada para o Estado e n\u00e3o para a representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. O brasileiro continua a ser um \u201ccidad\u00e3o menor\u201d e, sob esta perspectiva, podemos compreender as causas para o ressurgimento de novos coron\u00e9is da pol\u00edtica, como os quadrilheiros urbanos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse \u201ccidad\u00e3o prec\u00e1rio\u201d integra o maior contingente nacional, sendo a grande maioria dos 150 milh\u00f5es de eleitores apta a votar. S\u00e3o os aglomerados que se aboletam nas periferias congestionadas do Sudeste, regi\u00e3o que abriga quase 50% da popula\u00e7\u00e3o, e os bols\u00f5es carentes do Nordeste, onde vivem 27% dos brasileiros. A vassalagem de ontem muda de patr\u00e3o, mas n\u00e3o de atitude. O drible moral continua a dar as cartas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ontem, o coronel rural entregava o voto fechado no envelope para o s\u00fadito depositar na urna, sem lhe dar o direito de saber em quem estava votando: \u201cO voto \u00e9 secreto\u201d Hoje, o coronel miliciano e o chefe da gangue prometem conferir votos dados a seus candidatos. Pior: o comandante em chefe da Na\u00e7\u00e3o questiona a urna eletr\u00f4nica, enxergando nela motivos de fraude.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o ser\u00e1 de admirar se uma nova pr\u00e1tica for adotada nas elei\u00e7\u00f5es de outubro: o roubo de urnas eletr\u00f4nicas para driblar o processo eleitoral.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O mspontocom publica semanalmente artigo do professor Gaud\u00eancio Torquato. 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