{"id":171898,"date":"2022-06-21T08:42:40","date_gmt":"2022-06-21T12:42:40","guid":{"rendered":"https:\/\/mspontocom.com.br\/site\/?p=171898"},"modified":"2022-06-21T08:42:40","modified_gmt":"2022-06-21T12:42:40","slug":"artigo-gaudencio-torquato-tudo-e-permitido","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mspontocom.com.br\/site\/artigo-gaudencio-torquato-tudo-e-permitido\/","title":{"rendered":"Artigo Gaud\u00eancio Torquato:  TUDO \u00c9 PERMITIDO"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-medium wp-image-171899\" src=\"https:\/\/mspontocom.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/site-gaudencio-2-260x187.jpeg\" alt=\"\" width=\"260\" height=\"187\" srcset=\"https:\/\/mspontocom.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/site-gaudencio-2-260x187.jpeg 260w, https:\/\/mspontocom.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/site-gaudencio-2.jpeg 620w\" sizes=\"(max-width: 260px) 100vw, 260px\" \/><\/p>\n<p>O mspontocom publica semanalmente artigo do professor Gaud\u00eancio Torquato.<\/p>\n<p><strong><em>orquato \u00e9 jornalista, escritor, professor titular da USP e consultor pol\u00edtico\u00a0<a href=\"mailto:Twitter@gaudtorquato\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Twitter@gaudtorquato<\/a><\/em><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O poder invis\u00edvel se expande no Brasil. Trata-se da for\u00e7a descomunal de m\u00e1fias e grupos que se entranham nas malhas do poder para navegar nas \u00e1guas das administra\u00e7\u00f5es federal, estadual e municipal. M\u00e1fias que acabam de perpetrar o mais escabroso assassinato desses tempos turbulentos, a elimina\u00e7\u00e3o do indigenista Bruno e do jornalista ingl\u00eas Dom Phillips.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A S\u00f3lon, o legislador grego, foi perguntado se as leis que outorgara aos atenienses eram as melhores. Respondeu:\u00a0<em>\u201cDei-lhes as melhores que eles podiam suportar\u201d.<\/em>\u00a0E o caso do Brasil? Os nossos legisladores dir\u00e3o que as leis at\u00e9 s\u00e3o boas, mas o nosso territ\u00f3rio \u00e9 uma terra sem leis.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Generaliza-se a sensa\u00e7\u00e3o de que o Pa\u00eds, cuja popula\u00e7\u00e3o armada se expande nas ondas do apoio e benevol\u00eancia do mandat\u00e1rio-mor, navega nas ondas da impunidade. Madeireiros, mercadores de drogas, seringueiros, devassadores da floresta amaz\u00f4nica, ladr\u00f5es do asfalto, mil\u00edcias que dominam morros e favelas, enfim, sanguessugas e tr\u00e2nsfugas de todas as esp\u00e9cies, se espalham.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alguns, flagrados com a m\u00e3o na massa, continuam leves e soltos, a confirmar a tese de que o Brasil \u00e9, por excel\u00eancia, o territ\u00f3rio da desobedi\u00eancia expl\u00edcita. Nada mais surpreende. O esculacho chegou a tal ponto que uma fac\u00e7\u00e3o criminosa passou a participar do sistema de transporte privado na capital paulista. E o escrit\u00f3rio desse n\u00facleo est\u00e1 dentro do c\u00e1rcere. Certa vez, ouviu-se uma assertiva do comandante desse imp\u00e9rio do crime: ora, parlamentares tamb\u00e9m roubam.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Infere-se que o poder invis\u00edvel, confort\u00e1vel com a barb\u00e1rie que consome o Pa\u00eds, n\u00e3o tem mais escr\u00fapulos nem receio de mostrar a cara. Coloca-se no mesmo n\u00edvel do poder do Estado. Para lapidar a pedra bruta do estado de ina\u00e7\u00e3o em que vive o pa\u00eds, basta as m\u00e1fias da viol\u00eancia mobilizarem seus ex\u00e9rcitos nas ruas e for\u00e7as de ocupa\u00e7\u00e3o nos c\u00e1rceres. N\u00e3o \u00e9 de assustar se parcela significativa da popula\u00e7\u00e3o come\u00e7ar a aplaudir a bandidagem da quadra de baixo contra a turma que faz zoeira no andar de cima. Afinal de contas, a passarela da criminalidade e o desfile de impunidade nas antec\u00e2maras do Poder assumem dimens\u00f5es grandiosas e formas escandalosas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Corruptos e fac\u00ednoras, se condenados, ganham o mesmo status perante a lei. A anomia toma conta do Pa\u00eds. Vem de longe. Desde os idos da col\u00f4nia e do Imp\u00e9rio, fomos afeitos ao regime de permissividade, apesar da rigidez dos c\u00f3digos. Tom\u00e9 de Souza, primeiro governador-geral, chegou botando banca. Os crimes proliferavam. Avocou a si a imposi\u00e7\u00e3o da lei, tirando o poder das capitanias. Um \u00edndio que assassinara um colono foi amarrado na boca de um canh\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ordenou o tiro para tupinamb\u00e1s e colonos entrarem nos eixos. Mas em 1553 uma borracha foi passada na criminalidade, com exce\u00e7\u00e3o dos crimes de heresia, sodomia, trai\u00e7\u00e3o e moeda falsa. Depois chegaram as Ordena\u00e7\u00f5es do Reino (Afonsinas, Manuelinas e Filipinas), que vigoraram at\u00e9 1830. Severas, estabeleceram a pena de morte para a maioria das infra\u00e7\u00f5es, espantando at\u00e9 Frederico, o Grande, da Pr\u00fassia que, ao ler Livro das Ordena\u00e7\u00f5es, chegou a indagar:\u00a0<em>\u201cH\u00e1 ainda gente viva em Portugal?\u201d<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O fato \u00e9 que, hoje, entre tens\u00f5es e panos quentes, o Brasil semeia a cultura do faz-de-conta na aplica\u00e7\u00e3o das leis. Uma historinha ilustra nossa cultura<em>: h\u00e1 quatro tipos de sociedade no mundo. A primeira \u00e9 a inglesa, onde tudo \u00e9 permitido, salvo o que for proibido; a segunda \u00e9 a alem\u00e3, onde tudo \u00e9 proibido, salvo que for permitido; a terceira \u00e9 a sociedade que vive sob as ditaduras, onde tudo \u00e9 proibido, mesmo o que for permitido; e a quarta \u00e9 a brasileira, onde tudo \u00e9 permitido, mesmo o que for proibido.\u00a0<\/em>A prop\u00f3sito, os candidatos n\u00e3o est\u00e3o quebrando a legisla\u00e7\u00e3o eleitoral, ao promoverem e participarem nesse momento de com\u00edcios?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O descalabro se escancara: menos de 5% dos indiciados em inqu\u00e9ritos criminais chegam a cumprir senten\u00e7a condenat\u00f3ria. De milhares de roubos que ocorrem, por exemplo, na Grande S\u00e3o Paulo, poucos assaltantes s\u00e3o presos na ocasi\u00e3o do delito. Sob esse tecido costurado com os fios da ilegalidade nasce o poder invis\u00edvel, cancro das democracias contempor\u00e2neas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A esperan\u00e7a se esvai, a f\u00e9 se enterra, o sonho se apaga no maremoto das amarguras cotidianas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os \u00f3rg\u00e3os de investiga\u00e7\u00e3o e controle at\u00e9 avan\u00e7am. A Pol\u00edcia Federal, urge reconhecer, ganha mais qualidade, bastando ver o esfor\u00e7o para a descoberta dos assassinos do Vale do Jaguari. Mas h\u00e1 um longo caminho a percorrer para que o Brasil chegue a um patamar civilizat\u00f3rio de respeito.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O mspontocom publica semanalmente artigo do professor Gaud\u00eancio Torquato. orquato \u00e9 jornalista, escritor, professor titular da USP e consultor pol\u00edtico\u00a0Twitter@gaudtorquato &nbsp; O poder invis\u00edvel se expande no Brasil. 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