{"id":176898,"date":"2022-12-19T14:37:37","date_gmt":"2022-12-19T18:37:37","guid":{"rendered":"https:\/\/mspontocom.com.br\/site\/?p=176898"},"modified":"2022-12-19T14:37:37","modified_gmt":"2022-12-19T18:37:37","slug":"artigo-gaudencio-torquato-cronicando","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mspontocom.com.br\/site\/artigo-gaudencio-torquato-cronicando\/","title":{"rendered":"Artigo Gaud\u00eancio Torquato: Cronicando"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-medium wp-image-176899\" src=\"https:\/\/mspontocom.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/site-gaudencio-1-260x187.jpeg\" alt=\"\" width=\"260\" height=\"187\" srcset=\"https:\/\/mspontocom.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/site-gaudencio-1-260x187.jpeg 260w, https:\/\/mspontocom.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/site-gaudencio-1.jpeg 620w\" sizes=\"(max-width: 260px) 100vw, 260px\" \/><\/p>\n<p>O mspontocom publica semanalmente artigo do professor Gaud\u00eancio Torquato.<\/p>\n<p><strong>Gaud\u00eancio Torquato \u00e9 escritor, jornalista, professor titular da USP e consultor pol\u00edtico<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O analista pol\u00edtico costuma usar uma veia por onde corre a seiva de seu pensamento: \u00e9 o artigo, o coment\u00e1rio, o texto interpretativo. O roteiro \u00e9 conhecido: a hip\u00f3tese, no in\u00edcio, a argumenta\u00e7\u00e3o, no meio, e a conclus\u00e3o, ao final. J\u00e1 aos poetas (cronistas, acrescento) e pintores abre-se a mente criativa, com o jogo de palavras, o uso das met\u00e1foras, a imbrica\u00e7\u00e3o de figuras de linguagem, os versos, o ritmo, enfim, a leveza das frases sob a permiss\u00e3o que Verg\u00edlio lhes concedia na Eneida:\u00a0\u201c<em>poetis et pictoribus, omnia licet<\/em>\u201d (aos poetas e pintores, tudo \u00e9 permitido).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>E se o articulista optar pela seara que n\u00e3o \u00e9 bem a sua? Tentar, por exemplo, caminhar pela vereda dos sentimentos, pelas dobras do cora\u00e7\u00e3o, pela complexa maquinaria da linguagem para conseguir o intento de ler a pol\u00edtica e o esp\u00edrito do tempo, adotando outra modelagem, sem recorrer a narradores que n\u00e3o ele? Intuo que os leitores perceberam meu desejo de seguir essa trilha.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Pois vamos l\u00e1. Come\u00e7o com o \u00f3bvio: o Natal est\u00e1 chegando e os sinais mostram o esp\u00edrito do tempo: sacolas cheias nos shoppings, tr\u00e2nsito intenso, irrita\u00e7\u00e3o dos mais apressados, ruas cheias, a contraditar a express\u00e3o de que as luzes natalinas iluminam um tempo de paz e harmonia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Haver\u00e1 paz na era da competi\u00e7\u00e3o? N\u00e3o no campo da pol\u00edtica, espa\u00e7o de contendas e emboscadas, de \u00f3dio e vingan\u00e7a. Arengueiros de todos os calibres est\u00e3o a postos, conquistando ou reconquistando o poder para abater advers\u00e1rios e aqueles que n\u00e3o comungam com seus interesses. Habitantes dos assentos nas arquibancadas da pol\u00edtica procuram seus lugares nos est\u00e1dios constru\u00eddos por mandat\u00e1rios. \u00a0O c\u00e9u para uns, o inferno para outros. P\u00e1tria amada, P\u00e1tria desarmada, pregam os desafetos. Estocadas rec\u00edprocas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A guerra n\u00e3o cede aos contendores. Cada qual tem balas no bornal. Uns, limpando a poeira, refazem imagens com a tintura das esta\u00e7\u00f5es. Outros, procurando novo habitat, se refugiam nas dispersas ilhas do imenso arquip\u00e9lago. Guerreiam para ganhar lugar na ilha principal, no centro do territ\u00f3rio. L\u00e1 onde s\u00f3 se respira poder.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Nos desv\u00e3os do inconsciente, a historinha alimenta predadores e suas ca\u00e7as.\u00a0\u201c<em>Toda manh\u00e3 na \u00c1frica, a gazela acorda. Ela sabe que precisa correr mais r\u00e1pido que o mais r\u00e1pido dos le\u00f5es para sobreviver. Toda manh\u00e3 na \u00c1frica um le\u00e3o acorda. Ele sabe que precisa correr mais r\u00e1pido que a mais lenta das gazelas sen\u00e3o morrer\u00e1 de fome. N\u00e3o importa se voc\u00ea \u00e9 um le\u00e3o ou uma gazela. Quando o sol nascer, comece a correr.<\/em>\u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Triste realidade. Nascer, crescer, amadurecer e lutar para sobreviver na corrida da vida, cumprir as leis, seguir os ditames, sob pena de ser engolido pelas garras ferozes do \u201c<em>homem (que) \u00e9 o lobo do homem<\/em>\u201d,\u00a0conforme apregoava Thomas Hobbes. \u00c9 essa a cena que estamos vendo em terras do planeta, onde irm\u00e3os se tornam inimigos uns dos outros, vivendo um conflito pela conquista de territ\u00f3rios. Todos de um lado contra todos de outro.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O des\u00e2nimo \u00e9 o \u00e2nimo sem vontade. Como animar-se depois de uma trag\u00e9dia que matou perto de 700 mil pessoas em nossas plagas? Que harmonia podemos construir vivendo um clima de final de ano em um pa\u00eds que viu sumir a alegria de milh\u00f5es de fam\u00edlias? A intensa gastronomia natalina pode saciar o apetite dos est\u00f4magos, mas n\u00e3o supre as car\u00eancias da mente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O olhar para a manjedoura, nas igrejas e nos lares crist\u00e3os, contempla a m\u00e3e, Maria, o pai, Jos\u00e9, e o filho, o criador que nasceu para nos salvar. Mas o olhar vem acompanhado de afli\u00e7\u00e3o e ang\u00fastia, sob a t\u00eanue esperan\u00e7a de um futuro menos doloroso.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Como salvar os seres que vivem sob o \u00f3dio, destilam o veneno da crueldade, depredam propriedades privadas e p\u00fablicas, despindo o v\u00e9u de sua humanidade? Onde est\u00e3o o bucolismo dos tempos de outrora, a conversa nas cal\u00e7adas, os passeios tranquilos nas tardes e na boquinha da noite? A mem\u00f3ria dos nossos antepassados vai se perdendo na poeira do tempo, sufocada pelo turbilh\u00e3o de barulhos e clamores da agitada vida urbana.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Resta como consolo a pequenina chama de nossos candieiros, uma fatia de cren\u00e7a de que o amanh\u00e3 ser\u00e1 melhor do que o ontem, o sinal de que a ci\u00eancia avan\u00e7a, abrindo as gavetas de rem\u00e9dios e drogas capazes de estender o tempo de nossas vidas. Resta ouvir as palavras do velho Zaratustra, no alto da montanha, sobre a beleza da vida:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8211;<em>\u00a0Amo o que ama a sua virtude, porque a virtude \u00e9 vontade de extin\u00e7\u00e3o e uma seta do desejo&#8230; Amo o que faz da sua virtude a sua tend\u00eancia e o seu destino, pois assim, por sua virtude, querer\u00e1 viver ainda e deixar de viver&#8230;. \u00c9 tempo que o homem tenha um objetivo&#8230; \u00c9 tempo que o homem cultive o germe da sua mais elevada esperan\u00e7a&#8230;. \u00c9 preciso ter um caos dentro de si para dar \u00e0 luz uma estrela cintilante<\/em>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O mspontocom publica semanalmente artigo do professor Gaud\u00eancio Torquato. Gaud\u00eancio Torquato \u00e9 escritor, jornalista, professor titular da USP e consultor pol\u00edtico &nbsp; O analista pol\u00edtico costuma usar uma veia por onde corre a seiva de seu pensamento: \u00e9 o artigo, o coment\u00e1rio, o texto interpretativo. O roteiro \u00e9 conhecido: a hip\u00f3tese, no in\u00edcio, a argumenta\u00e7\u00e3o, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":176899,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0},"categories":[12],"tags":[17132,34523],"aioseo_notices":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/mspontocom.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/176898"}],"collection":[{"href":"https:\/\/mspontocom.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/mspontocom.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mspontocom.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mspontocom.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=176898"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/mspontocom.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/176898\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":176900,"href":"https:\/\/mspontocom.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/176898\/revisions\/176900"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mspontocom.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/176899"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/mspontocom.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=176898"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/mspontocom.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=176898"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/mspontocom.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=176898"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}