{"id":186754,"date":"2023-12-12T08:17:51","date_gmt":"2023-12-12T12:17:51","guid":{"rendered":"https:\/\/mspontocom.com.br\/site\/?p=186754"},"modified":"2023-12-12T08:17:51","modified_gmt":"2023-12-12T12:17:51","slug":"artigo-gaudencio-torquato-tempos-inquietantes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mspontocom.com.br\/site\/artigo-gaudencio-torquato-tempos-inquietantes\/","title":{"rendered":"Artigo Gaud\u00eancio Torquato: Tempos Inquietantes"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-186755\" src=\"https:\/\/mspontocom.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/site-gaudencio1.jpg\" alt=\"\" width=\"1626\" height=\"789\" srcset=\"https:\/\/mspontocom.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/site-gaudencio1.jpg 1626w, https:\/\/mspontocom.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/site-gaudencio1-260x126.jpg 260w, https:\/\/mspontocom.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/site-gaudencio1-1024x497.jpg 1024w, https:\/\/mspontocom.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/site-gaudencio1-768x373.jpg 768w, https:\/\/mspontocom.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/site-gaudencio1-1536x745.jpg 1536w\" sizes=\"auto, (max-width: 1626px) 100vw, 1626px\" \/>O mspontocom publica semanalmente artigo do professor Gaud\u00eancio Torquato<\/p>\n<p><strong id=\"m_1895991419128397160i77iih\"><span id=\"m_1895991419128397160izsf3a\">Torquato \u00e9 escritor, jornalista, professor titular da USP e consultor pol\u00edtico<\/span><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Retomo a lenda de S\u00edsifo, j\u00e1 descrita neste espa\u00e7o. Fosse escolher a lenda mitol\u00f3gica que mais se assemelha \u00e0 sua vida, provavelmente o povo brasileiro colocaria a hist\u00f3ria do castigo de S\u00edsifo entre as preferidas. S\u00edsifo, que viveu vida solerte, conseguiu livrar-se da morte por duas vezes, sempre blefando. Rei de Corinto, n\u00e3o cumpria a palavra empenhada, at\u00e9 que T\u00e2natos veio busc\u00e1-lo em definitivo para lev\u00e1-lo ao Hades. Como castigo, os deuses o condenaram impiedosamente a rolar montanha acima um grande bloco de pedra. Quase chegando ao cume, o bloco desaba montanha abaixo.<\/p>\n<p>O povo brasileiro se sente no estado de um eterno recome\u00e7o. Quando acha que as coisas est\u00e3o se normalizando, o desastre aparece. Por isso, o homem comum se v\u00ea numa ilha amea\u00e7ada por pequenas e grandes cat\u00e1strofes. Esc\u00e2ndalos explodem aqui e ali, devastando o tecido institucional. A corrup\u00e7\u00e3o continua a aumentar seu Produto Interno Bruto. E at\u00e9 escancara seus m\u00e9todos. O governo promete realizar a reforma tribut\u00e1ria, que claudica no Congresso. Impostos e tributos diminuir\u00e3o? Promessa pra boi dormir. Decepciona a performance do nosso aluno, principalmente no terreno da matem\u00e1tica. Lula pede menos advogados e mais formandos de ci\u00eancias exatas. D\u00e1 condi\u00e7\u00f5es para isso?<\/p>\n<p>Os jovens se afastam da pol\u00edtica, \u00e1rea da qual sempre tomaram dist\u00e2ncia. Analisemos o caso dos infantes e adolescentes.\u00a0 Conectam-se horas e horas por meio de seus celulares. Comunicam-se com quem? Com seus egos. Desenvolvendo a linguagem? N\u00e3o. Apenas\u00a0 consolidam o que tenho chamado de linguagem tatibitate. Comunica\u00e7\u00e3o com um rapazinho de 13 anos.<\/p>\n<p>&#8211; Como est\u00e1 voc\u00ea?<br \/>\n&#8211; Bem<br \/>\n&#8211; Conte-me como foi sua aula de hist\u00f3ria?<br \/>\n&#8211; Legal<br \/>\n&#8211; O professor \u00e9 bom, o que ele ensinou?<br \/>\n&#8211; Joia<br \/>\n&#8211; Conte-me como foi o seu dia ontem? Lembra-se?<br \/>\n&#8211; Legal.<\/p>\n<p>A linguagem patinante se encerra com um abrupto tchau, bj.<\/p>\n<p>Para onde esta gera\u00e7\u00e3o do \u201coi\u201d est\u00e1 nos levando? Para os campos das balbucia\u00e7\u00f5es, o in\u00edcio dos tempos, a aurora da linguagem falada. Quem leu um livro nesse ano? Quantas p\u00e1ginas tinham? 5, 7, 10 p\u00e1ginas? Estamos vivenciando tempos de socializa\u00e7\u00e3o do universo de conte\u00fados. O google e outras ferramentas de procura ajudam a Humanidade a encontrar respostas para as quest\u00f5es mais complexas. A famosa (mesmo com pouco tempo de vida) Intelig\u00eancia Artificial tem respostas rapid\u00edssimas para os mais encrencados problemas. Mas ainda est\u00e1 na fase de amadurecimento.<\/p>\n<p>J\u00e1 contei uma vez. Perguntando sobre minha pessoa, meus livros e outros escritos, deu uma resposta com dados parcialmente corretos, corrigidos com calorosas desculpas ante discord\u00e2ncias. O pior erro foi me jogar nas Filipinas, a terra do Ferdinando Marcos, o ditador cuja esposa, Imelda, tinha uma cole\u00e7\u00e3o de milhares de sapatos. Onde a turma do \u201coi, tudo bem\u201d nos levar\u00e1? E a IA vai ajudar esta gera\u00e7\u00e3o a sair de seu cantinho nas redes? A procurar sair do turbilh\u00e3o de \u201cais, ois, bye, legal, tudo bem, sim, n\u00e3o?\u201d<\/p>\n<p>Onde est\u00e1 o fervor c\u00edvico? O amor \u00e0 P\u00e1tria? O sentimento de Na\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Alexis de Tocqueville, h\u00e1 quase 200 anos, em Democracia na Am\u00e9rica assim descrevia a alma norte-americana: \u201cexiste um amor \u00e0 p\u00e1tria que tem a sua fonte principal naquele sentimento irrefletido, desinteressado e indefin\u00edvel que liga o cora\u00e7\u00e3o do homem aos lugares onde o homem nasceu. Confunde-se esse amor instintivo com o gosto pelos costumes antigos, com o respeito aos mais velhos e a lembran\u00e7a do passado; aqueles que o experimentam estimam o seu pa\u00eds com o amor que se tem \u00e0 casa paterna\u201d.<\/p>\n<p>Que amor \u00e0 P\u00e1tria pode existir em esp\u00edritos tomados pelo pavor, pela viol\u00eancia de tiros \u00e0 esmo, pelas balas perdidas, pelos assaltos que infestam as ruas centrais e perif\u00e9ricas, pela bandidagem que monta seus escrit\u00f3rios no interior dos c\u00e1rceres? Que esp\u00edrito p\u00fablico pode vingar no seio das massas quando as elites dividem espa\u00e7os de poder, de forma egoc\u00eantrica e ignominiosa, que volta a colocar na ordem do dia o lamento de Simon Bol\u00edvar, o timoneiro, quando, um dia, retratou a sofrida Am\u00e9rica Latina: \u201cn\u00e3o h\u00e1 boa f\u00e9 na Am\u00e9rica, nem entre os homens nem entre as na\u00e7\u00f5es; os tratados s\u00e3o pap\u00e9is, as constitui\u00e7\u00f5es n\u00e3o passam de livros, as elei\u00e7\u00f5es s\u00e3o batalhas, a liberdade \u00e9 anarquia e a vida um tormento. A \u00fanica coisa que se pode fazer na Am\u00e9rica \u00e9 emigrar\u201d.<\/p>\n<p>Emigrar foi a op\u00e7\u00e3o de milhares de brasileiros em tempos n\u00e3o muito remotos. Hoje, muitos retornam \u00e0 casa sob o patroc\u00ednio de uma aparente estabilidade econ\u00f4mica, grifada com uma angustiante interroga\u00e7\u00e3o. Emigrar tamb\u00e9m foi uma op\u00e7\u00e3o de milh\u00f5es de brasileiros, que nas \u00faltimas d\u00e9cadas, sa\u00edram do campo para as cidades, \u00e0 procura de emprego. Estabilidade que traga a seguran\u00e7a do emprego e o conforto de um sal\u00e1rio razo\u00e1vel, capaz de prover as necessidades m\u00ednimas. Estabilidade que permita a todos divisar, com nitidez, a linha do horizonte. O consumidor coloca em seu balc\u00e3o de prioridades a necessidade de saber quanto dinheiro ter\u00e1 no in\u00edcio e no final de cada m\u00eas. Tal sentimento eleva a taxa de nacionalidade. Viver sob a ilus\u00e3o de ganhos inflacion\u00e1rios j\u00e1 n\u00e3o mais faz a cabe\u00e7a do poupador. Ele quer mais \u00e9 se sentir integrante do selecionado grupo de cidad\u00e3os do primeiro mundo que tem na moeda um fator de equil\u00edbrio social.<\/p>\n<p>N\u00e3o basta, contudo, a estabilidade monet\u00e1ria. Os brasileiros sonham em recuperar outros sinais antigos de bem estar. A chama tel\u00farica que se apaga com o violento sopro da incha\u00e7\u00e3o das metr\u00f3poles e o crescimento desordenado dos bairros volta a se acender no cora\u00e7\u00e3o de segmentos de todas as classes sociais. A verdade \u00e9 que o fator econ\u00f4mico, no pa\u00eds, canibalizou o fator pol\u00edtico. Hoje, a pol\u00edtica procura resgatar seu protagonismo, arreganhando a bocarra para agarrar nacos do or\u00e7amento nacional.<\/p>\n<p>E as massas, como se comportam? Observando. Refugiando-se nas 800 mil organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o governamentais, que passam a abrigar suas demandas. Hora de arregalar os olhos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O mspontocom publica semanalmente artigo do professor Gaud\u00eancio Torquato Torquato \u00e9 escritor, jornalista, professor titular da USP e consultor pol\u00edtico &nbsp; Retomo a lenda de S\u00edsifo, j\u00e1 descrita neste espa\u00e7o. 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