{"id":188823,"date":"2024-03-05T04:49:04","date_gmt":"2024-03-05T08:49:04","guid":{"rendered":"https:\/\/mspontocom.com.br\/site\/?p=188823"},"modified":"2024-03-05T06:51:58","modified_gmt":"2024-03-05T10:51:58","slug":"artigo-gaudencio-torquato-os-malabaristas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mspontocom.com.br\/site\/artigo-gaudencio-torquato-os-malabaristas\/","title":{"rendered":"Artigo Gaud\u00eancio Torquato: Os Malabaristas"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-188829\" src=\"https:\/\/mspontocom.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/site-artigo-gaudencio-torquato-os-malabaristas-gaudencio1.jpg\" alt=\"\" width=\"1626\" height=\"789\" srcset=\"https:\/\/mspontocom.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/site-artigo-gaudencio-torquato-os-malabaristas-gaudencio1.jpg 1626w, https:\/\/mspontocom.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/site-artigo-gaudencio-torquato-os-malabaristas-gaudencio1-260x126.jpg 260w, https:\/\/mspontocom.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/site-artigo-gaudencio-torquato-os-malabaristas-gaudencio1-1024x497.jpg 1024w, https:\/\/mspontocom.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/site-artigo-gaudencio-torquato-os-malabaristas-gaudencio1-768x373.jpg 768w, https:\/\/mspontocom.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/site-artigo-gaudencio-torquato-os-malabaristas-gaudencio1-1536x745.jpg 1536w\" sizes=\"(max-width: 1626px) 100vw, 1626px\" \/>O <strong>mspontocom<\/strong> publica semanalmente artigo do professor Gaud\u00eancio Torquato.<\/p>\n<p>Torquato \u00e9 escritor, jornalista, professor titular da USP e consultor pol\u00edtico<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O conv\u00edvio intenso e longo com o poder gera poderoso efeito narcotizante. Transforma seres mortais, pessoas simples e humildes, gente com hist\u00f3rias iguais a de seus semelhantes, em \u201cdivindades\u201d. A que se deve essa distor\u00e7\u00e3o? \u00c0 armadilha do falso retrato, da autocontempla\u00e7\u00e3o, que prende os homens p\u00fablicos \u00e0 paisagem de Narciso, aquele que foi condenado pelos deuses a se apaixonar pela pr\u00f3pria imagem. Como conta a lenda, ele tomou-se de amores pela imagem quando se contemplava nas \u00e1guas transparentes de uma fonte. Obcecado pelo reflexo, Narciso n\u00e3o mais se afastava da \u00e1gua, definhando at\u00e9 a morte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">O Brasil est\u00e1 recheado de narcisistas, pessoas fascinadas pelo pr\u00f3prio brilho, um brilho ilus\u00f3rio, porque muitas perderam poder, n\u00e3o o orgulho. Que tipo de mal os narcisistas cometem contra si mesmos e contra a sociedade? O maior dos males \u00e9 a ina\u00e7\u00e3o, a in\u00e9rcia, a perda do sentido de realidade. Presos no simulacro do poder, exibem um prest\u00edgio falso, que frequentemente conduz ao \u00f3cio. Ali\u00e1s,\u00a0praestigium, do latim, significa nada mais nada menos que artif\u00edcio, ilus\u00e3o, malabarismo. Os malabaristas da pol\u00edtica, conscientes ou n\u00e3o, acabam promovendo a mistifica\u00e7\u00e3o das massas, fazendo-as crer que seu discurso \u00e9 a a\u00e7\u00e3o, o verbo \u00e9 t\u00e3o importante como a verba, a palavra \u00e9 a extens\u00e3o da verdade. O falat\u00f3rio no oceano da pol\u00edtica \u00e9 intenso. Cada qual com sua onda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">O brasileiro tem predile\u00e7\u00e3o pela cultura oral, uma das tradi\u00e7\u00f5es mais ricas do pa\u00eds. Um passeio pela monumental obra do insuper\u00e1vel Lu\u00eds da C\u00e2mara Cascudo, potiguar bo\u00eamio, bonach\u00e3o e denso, que produziu a mais fecunda obra sobre a cultura popular brasileira, nos propicia abrangente vis\u00e3o. A tradi\u00e7\u00e3o de oralidade penetrou profundamente nas veias, mentes e cora\u00e7\u00f5es da representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, a ponto de se atribuir, por muito tempo, a grandeza dos homens p\u00fablicos n\u00e3o aos projetos e feitos empreendidos, mas ao dom\u00ednio do verbo no palanque ou na tribuna parlamentar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Duas historinhas mostram as faces da perora\u00e7\u00e3o tradicional da pol\u00edtica. A primeira \u00e9 a do baiano, embevecido com a ret\u00f3rica complicada, cheia de palavras dif\u00edceis de seu candidato, em um com\u00edcio numa pequena cidade interiorana. N\u00e3o se cansou de bater palmas, concluindo categ\u00f3rico: \u201cn\u00e3o entendi nada do que o homem falou, mas falou bonito; vai levar meu voto\u201d. A segunda historinha \u00e9 a do candidato a deputado, que, arrebatado, en\u00e9rgico, espumando de civismo, discorria sobre o valor da liberdade. Argumentava que um povo livre sabe escolher seus caminhos, seus governantes, eleger os seus representantes, fazer as melhores escolhas. Para entusiasmar a multid\u00e3o, levou um passarinho numa gaiola, que deveria ser solto no cl\u00edmax do discurso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">No momento que julgou oportuno, puxou o passarinho da gaiola, e com ele na m\u00e3o direita, gritou para a massa:\u00a0\u201ca liberdade \u00e9 o sonho do homem, o desejo de construir seu espa\u00e7o, sua vida, com orgulho, sem subservi\u00eancia, sem opress\u00e3o; Deus (citar Deus \u00e9 um recurso muito usado)\u00a0nos deu a liberdade para fazermos dela o instrumento de nossa dignidade; quero que todos voc\u00eas, hoje, aqui e agora, comprometam-se com o ideal do homem livre. Para simbolizar esse compromisso, vamos aplaudir a soltura deste belo can\u00e1rio, que vai ganhar o c\u00e9u da liberdade\u201d.\u00a0Ao abrir a m\u00e3o, viu que esmagara o passarinho, sem perceber a m\u00e3o contra\u00edda. Quanta decep\u00e7\u00e3o. A frustra\u00e7\u00e3o por ter matado o bichinho acabou com a euforia e as vaias substitu\u00edram os aplausos. Um desastre. \u00c9 sempre assim quando n\u00e3o se controla a emo\u00e7\u00e3o. O discurso pol\u00edtico atira, frequentemente, na raz\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Juntando-se, ent\u00e3o, o narcisista e o demagogo, o verborr\u00e1gico e o reizinho cheio de emp\u00e1fia, obt\u00e9m-se a receita do perfil que pretende ser o modelo de representa\u00e7\u00e3o das massas. \u00c9 a jun\u00e7\u00e3o do ruim com o p\u00e9ssimo, de Narciso com Justo Ver\u00edssimo, canhestro personagem do saudoso Chico An\u00edsio. Quando essa moldura aparece na parede, a pol\u00edtica volta a ser aquilo que Paul Val\u00e9ry mais temia: \u00a0\u201ca arte de impedir que as pessoas cuidem do que lhes dizem respeito\u201d. Nesses tempos de redes sociais, de surgimento de novas fontes de poder, de intercomunica\u00e7\u00e3o entre os influenciadores da sociedade, urge ter cuidado. O discurso com firulas pode arruinar os atores. N\u00e3o se engana mais como antigamente; os atores s\u00e3o flagrados quando escondem o lixo debaixo do tapete; ou, ainda, quando a maquiagem expressiva procura disfar\u00e7ar a defici\u00eancia do pensamento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Criar adornos populistas nas falas de palanques, carregar passarinhos em gaiolas para solt\u00e1-los em com\u00edcios, enfim, enfeitar o verbo com dribles lingu\u00edsticos j\u00e1 n\u00e3o puxam a aclama\u00e7\u00e3o das multid\u00f5es. Promessas mirabolantes n\u00e3o entram na cachola do eleitor. Esse \u00e9 um alerta para o ano eleitoral em curso.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O mspontocom publica semanalmente artigo do professor Gaud\u00eancio Torquato. 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