{"id":189587,"date":"2024-04-01T04:06:04","date_gmt":"2024-04-01T08:06:04","guid":{"rendered":"https:\/\/mspontocom.com.br\/site\/?p=189587"},"modified":"2024-04-01T07:40:14","modified_gmt":"2024-04-01T11:40:14","slug":"artigo-gaudencio-torquato-uma-visita-ao-passado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mspontocom.com.br\/site\/artigo-gaudencio-torquato-uma-visita-ao-passado\/","title":{"rendered":"Artigo Gaud\u00eancio Torquato:  Uma visita ao passado"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-189588\" src=\"https:\/\/mspontocom.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/site-artigo-gaudencio-torquato-uma-visita-ao-passado-gaudencio1.jpg\" alt=\"\" width=\"1626\" height=\"789\" srcset=\"https:\/\/mspontocom.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/site-artigo-gaudencio-torquato-uma-visita-ao-passado-gaudencio1.jpg 1626w, https:\/\/mspontocom.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/site-artigo-gaudencio-torquato-uma-visita-ao-passado-gaudencio1-260x126.jpg 260w, https:\/\/mspontocom.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/site-artigo-gaudencio-torquato-uma-visita-ao-passado-gaudencio1-1024x497.jpg 1024w, https:\/\/mspontocom.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/site-artigo-gaudencio-torquato-uma-visita-ao-passado-gaudencio1-768x373.jpg 768w, https:\/\/mspontocom.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/site-artigo-gaudencio-torquato-uma-visita-ao-passado-gaudencio1-1536x745.jpg 1536w\" sizes=\"(max-width: 1626px) 100vw, 1626px\" \/>O <strong>mspontocom<\/strong> publica semanalmente o artigo do profeesor Gaud\u00eancio Torquato.<\/p>\n<div class=\"m_-2963673938725955230he-col m_-2963673938725955230he-last\">\n<table class=\"m_-2963673938725955230he-col\" border=\"0\" width=\"100%\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"0\" align=\"center\">\n<tbody>\n<tr>\n<td align=\"center\">\n<table border=\"0\" width=\"100%\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"0\">\n<tbody>\n<tr>\n<td>Torquato \u00e9 escritor, jornalista, professor titular da USP e consultor pol\u00edtico<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No Brasil, o passado \u00e9 sempre revisitado. E com direito a reviver h\u00e1bitos, mesmo os p\u00e9rfidos. \u00c9 o caso do coronelismo dos anos 30, do ciclo agr\u00edcola, que castigava o livre exerc\u00edcio dos direitos pol\u00edticos. Os velhos coron\u00e9is da Primeira Rep\u00fablica (1889-1930) consideravam os eleitores como s\u00faditos, n\u00e3o como cidad\u00e3os. Criavam feudos dentro do Estado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">A autoridade constitu\u00edda esbarrava na porteira das fazendas. Hoje, em nosso pa\u00eds urbano, as autoridades precisam pedir licen\u00e7a para subir aos morros. O imp\u00e9rio coronelista do princ\u00edpio do s\u00e9culo passado finca ra\u00edzes no ro\u00e7ado do Rio de Janeiro. H\u00e1 d\u00e9cadas que o poder p\u00fablico tenta atacar o poder do submundo das mil\u00edcias, que acaba de mostrar seus dom\u00ednios, com a revela\u00e7\u00e3o dos mandantes do assassinato da ex-vereadora Marielle Franco. Extinguir o imp\u00e9rio do crime tem sido tarefa fracassada. Entra um governante, sai outro, e os grupos, \u201cdonos de votos de cabresto\u201d, d\u00e3o as cartas. Nesse ano, a polariza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica deve incrementar essa modalidade eleitoral.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">As den\u00fancias afloram: comunidades de muitas cidades do segundo maior col\u00e9gio eleitoral do Pa\u00eds, dominadas por mil\u00edcias, quadrilhas comandadas por ex-policiais, s\u00e3o cercadas pelos \u201cnovos coron\u00e9is\u201d, que amea\u00e7am aqueles que n\u00e3o consagram nas urnas os nomes de seus candidatos. E por mais que for\u00e7as policiais entrem em a\u00e7\u00e3o, os \u201cguerrilheiros\u201d posam com seus fuzis, desafiando o poder constitu\u00eddo. O assassinato de Marielle passou seis anos escondido nas malhas intestinas do poder invis\u00edvel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Em plena segunda d\u00e9cada do s\u00e9culo XXI, o novo coronelismo desafia abertamente as for\u00e7as do Estado, resgatando velhos costumes. Para recordar, o voto de cabresto, pr\u00e1tica fraudulenta dos tempos da velha Rep\u00fablica, transfere-se ao dom\u00ednio de chefes das mil\u00edcias. Os currais eleitorais s\u00e3o comunidades miser\u00e1veis, comprimidas em morros, favelas e bairros degradados, onde o poder bandido monta formid\u00e1vel aparato.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">As mudan\u00e7as na geografia nacional pouco t\u00eam contribu\u00eddo para a altera\u00e7\u00e3o do mapa pol\u00edtico. Nos \u00faltimos 80 anos, a popula\u00e7\u00e3o urbana cresceu, no Pa\u00eds, de 30% para 80%, agigantando cidades, expandindo demandas, e propiciando a continua\u00e7\u00e3o de v\u00edcios, dentre eles o voto por encomenda. \u00c9 verdade que mudan\u00e7as sociais e pol\u00edticas, a partir das d\u00e9cadas de 30 e 40, at\u00e9 aumentaram a participa\u00e7\u00e3o do povo no processo eleitoral. Mas n\u00e3o se pode negar a imensa dist\u00e2ncia, hoje bem percept\u00edvel, entre a fortaleza econ\u00f4mica e a fr\u00e1gil estrutura pol\u00edtica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">O bi\u00f3logo franc\u00eas Louis Couty dizia, em 1881, que \u201co Brasil n\u00e3o tem povo\u201d. Seu argumento era que, dos 12 milh\u00f5es de habitantes da \u00e9poca, poucos eram os eleitores capazes de impor ao governo uma dire\u00e7\u00e3o definida. Uma raz\u00e3o para explicar nossa incultura pol\u00edtica \u00e9 a equa\u00e7\u00e3o que soma componentes como pobreza educacional das massas, perversa disparidade de renda entre classes, sistema pol\u00edtico resistente \u00e0s mudan\u00e7as, patroc\u00ednio de mazelas, entre as quais o patrimonialismo, o caciquismo e o assistencialismo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">A concentra\u00e7\u00e3o de for\u00e7as permanece sob a \u00e9gide do Estado todo-poderoso, duro na fun\u00e7\u00e3o de cobrador de impostos, distribuidor de favores e com poder de definir os destinos da sociedade. O brasileiro continua a ser um cidad\u00e3o com direitos comprimidos. Sob essa sombra, multiplicam-se as moitas que escondem os quadrilheiros urbanos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse \u201ccidad\u00e3o prec\u00e1rio\u201d integra o maior contingente nacional, sendo a grande maioria dos cerca de 160 milh\u00f5es de eleitores aptos a votar em outubro. S\u00e3o os aglomerados que se aboletam nas periferias congestionadas do Sudeste, regi\u00e3o com quase 50% da popula\u00e7\u00e3o, e os bols\u00f5es carentes do Nordeste, onde vivem 27% dos brasileiros. A vassalagem de ontem muda de patr\u00e3o, mas n\u00e3o de atitude.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Os coron\u00e9is de idos tempos entregavam o voto fechado no envelope para o eleitor depositar na urna. \u201cO voto \u00e9 secreto\u201d, respondiam ao s\u00fadito que queria saber em quem estava votando. Hoje, os chefes das mil\u00edcias conferem votos dados a seus candidatos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00f3 falta mesmo fazerem como o coronel Lucas Pinto, de Apodi (RN). Quando o Tribunal Eleitoral exigiu que os t\u00edtulos eleitorais fossem documentados com a foto do eleitor, mandou um fot\u00f3grafo \u201ctirar a chapa\u201d do rebanho. Levou as urnas de Apodi para o Juiz, em Mossor\u00f3, 15 dias ap\u00f3s as elei\u00e7\u00f5es. Tomou uma bronca.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Coronel, isso n\u00e3o se faz. As elei\u00e7\u00f5es ocorreram h\u00e1 15 dias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Pode deixar, seu Juiz. Na pr\u00f3xima, vou trazer bem cedo. Na elei\u00e7\u00e3o seguinte, 3 dias antes do pleito, o coronel Lucas chegou com um comboio de burros carregando as urnas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0Surpreendeu o juiz:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013\u00a0Taqui, seu juiz, as urnas de Apodi.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Mas coronel, as elei\u00e7\u00f5es ser\u00e3o daqui a tr\u00eas dias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Ah, seu juiz, n\u00e3o quero levar mais bronca. T\u00e1 tudo direitinho. Todos os eleitores votaram. Trouxe antes para n\u00e3o ter problema.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O mspontocom publica semanalmente o artigo do profeesor Gaud\u00eancio Torquato. Torquato \u00e9 escritor, jornalista, professor titular da USP e consultor pol\u00edtico &nbsp; No Brasil, o passado \u00e9 sempre revisitado. 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