{"id":190723,"date":"2024-05-14T03:45:24","date_gmt":"2024-05-14T07:45:24","guid":{"rendered":"https:\/\/mspontocom.com.br\/site\/?p=190723"},"modified":"2024-05-14T03:45:24","modified_gmt":"2024-05-14T07:45:24","slug":"artigo-gaudencio-torquato-um-cavalo-no-telhado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mspontocom.com.br\/site\/artigo-gaudencio-torquato-um-cavalo-no-telhado\/","title":{"rendered":"Artigo Gaud\u00eancio Torquato: Um cavalo no telhado"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-190724\" src=\"https:\/\/mspontocom.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/site-artigo-gaudencio-torquato-um-cavalo-no-telhado-cavalo-ilhado-foto-e1715187080313.jpg\" alt=\"\" width=\"455\" height=\"200\" srcset=\"https:\/\/mspontocom.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/site-artigo-gaudencio-torquato-um-cavalo-no-telhado-cavalo-ilhado-foto-e1715187080313.jpg 455w, https:\/\/mspontocom.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/site-artigo-gaudencio-torquato-um-cavalo-no-telhado-cavalo-ilhado-foto-e1715187080313-260x114.jpg 260w\" sizes=\"auto, (max-width: 455px) 100vw, 455px\" \/><\/p>\n<p>O <strong>mspontocom<\/strong> publica semanalmente artigo do professor Gaud\u00eancio Torquato<\/p>\n<p>Torquato \u00e9 escritor, jornalista, professor titular da USP e consultor pol\u00edtico<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A foto \u00e9 emblem\u00e1tica. Um cavalo no alto do telhado de uma casa, olhando para a \u00e1gua que o cerca. Sem enxergar um palmo de terra firme que a encoraje a sair do desconforto. Na maior trag\u00e9dia pluviom\u00e9trica que assola o Rio Grande do Sul, o cavalo Caramelo, de Canoas, uma das cidades inundadas pelas enchentes, simboliza a perplexidade que toma conta n\u00e3o apenas dos ga\u00fachos, mas de todos os brasileiros que nunca viram cenas t\u00e3o devastadoras e intensas quanto as que lhe s\u00e3o expostas pela teia midi\u00e1tica. A cena de uma garotinha pedindo que o barqueiro pegasse uma boneca que flutuava na \u00e1gua \u00e9 comovente. A boneca era um beb\u00ea. Realismo fant\u00e1stico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">O Brasil vive um momento de triste perplexidade. Sem entender como e porque um Estado t\u00e3o bem-dotado de infraestrutura, um dos mais desenvolvidos da Federa\u00e7\u00e3o, a 5\u00aa. maior economia nacional, seja impiedosamente destru\u00eddo por precipita\u00e7\u00f5es pluviom\u00e9tricas. Como n\u00e3o se previu tamanha calamidade? Como tem sido poss\u00edvel que os danos \u00e0s pessoas sejam de tal monta, que a vida de centenas de fam\u00edlias seja jogada no despenhadeiro? Nietzche, o magistral fil\u00f3sofo, prenunciou: a ampulheta do tempo, vira e mexe, imp\u00f5e o eterno recome\u00e7o como nosso conceito de devir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">A cada esta\u00e7\u00e3o do ano, o Brasil ganha as cenas de vidas destro\u00e7adas. Vai, aqui, pequena mem\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1975, um vazamento de 6 mil toneladas de \u00f3leo, do petroleiro Tarik Iba Ziyad, fretado pela Petrobras, contaminou a ba\u00eda de Guanabara. O maior vazamento de \u00f3leo no Brasil. Em 1980, no Vale da Morte, em Cubat\u00e3o, a libera\u00e7\u00e3o de gases t\u00f3xicos por ind\u00fastrias do polo petroqu\u00edmico, aumentou os problemas de sa\u00fade na regi\u00e3o. \u00a0 Ainda em Cubat\u00e3o, em 1984, na Vila Soc\u00f3, um grande inc\u00eandio matou 93 pessoas. Falha na tubula\u00e7\u00e3o. Em 1987, foi a vez de Goi\u00e2nia, com o acidente radiol\u00f3gico com um aparelho de radioterapia abandonado, dentro do qual estava uma c\u00e1psula de c\u00e9sio-137. Outro vazamento de \u00f3leo na ba\u00eda de Guanabara, em 2000; responsabilidade da Petrobras. 25 praias contaminadas. Ainda em 2000, no Paran\u00e1, houve um vazamento de \u00f3leo nos rios Barigui e Igua\u00e7u. 4 milh\u00f5es de litros de \u00f3leo.\u00a0 Vimos, em 2001, o naufr\u00e1gio da plataforma P-36, na bacia de Campos, que despejou 1500 toneladas de \u00f3leo a bordo, matando 11 pessoas. A seguir, em 2003, a ind\u00fastria Cataguases, em Minas Gerais, despejou 1 bilh\u00e3o e 400 milh\u00f5es de lix\u00edvia nas \u00e1guas da bacia hidrogr\u00e1fica do Para\u00edba do Sul. Em 2007, o rompimento de barragem Bom Jardim em MG. Em 2011, outro vazamento de \u00f3leo na bacia de Campos, RJ. No porto de Santos, em 2015, ocorreu o inc\u00eandio na Ultracargo, durante transfer\u00eancia de tanques de gasolina e etanol. Ainda em 2015, houve o vazamento da barragem do Fund\u00e3o, em Mariana, MG, com 62 milh\u00f5es de m3 de lama.\u00a0 Responsabilidade da empresa Samarco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Em janeiro de 2019, em Brumadinho, MG, viu-se um dos maiores desastres ambientais no Brasil, com o rompimento da barragem Mina do Feij\u00e3o, sob responsabilidade da companhia Vale do Rio Doce. 270 mortos. Uma trag\u00e9dia. E agora, a trag\u00e9dia das trag\u00e9dias, essa que conta mais de 100 mortos, atinge 83% dos munic\u00edpios ga\u00fachos e deixa mais de meio milh\u00e3o de pessoas ao relento. O que essa calamidade expressa? Primeiro, a aus\u00eancia de pol\u00edticas voltadas para a preven\u00e7\u00e3o de cat\u00e1strofes. As for\u00e7as naturais recebem as cr\u00edticas, mas a m\u00e3e natureza n\u00e3o tem tanta culpa. A obra de devasta\u00e7\u00e3o a cargo do homem, em sua incessante obstina\u00e7\u00e3o para apressar o fim do planeta, \u00e9 a principal respons\u00e1vel por cat\u00e1strofes. Quantos parlamentares dedicaram verbas para a preven\u00e7\u00e3o de enchentes? Um, dois, tr\u00eas? Os homens p\u00fablicos deveriam ir ao pared\u00e3o da vergonha por n\u00e3o constru\u00edrem barreiras preventivas nos espa\u00e7os que administram.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">O trabalho volunt\u00e1rio mostra a solidariedade de brasileiros na trag\u00e9dia ga\u00facha. E serve de b\u00e1lsamo para amenizar a dor de milhares de aflitos. Mas \u00e9 isso que sobra ante a mar\u00e9 de improvisa\u00e7\u00e3o que grassa na administra\u00e7\u00e3o de Estados e munic\u00edpios. Para arrematar o mosaico de desleixo, compet\u00eancias constitucionais s\u00e3o distribu\u00eddas de maneira irregular entre os entes federativos. Uni\u00e3o, estados e munic\u00edpios repartem \u00e1reas comuns como servi\u00e7os sociais, meio-ambiente e habita\u00e7\u00e3o etc. O resultado \u00e9 uma sobreposi\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00f5es, particularmente nos palanques midi\u00e1ticos, aqueles que impressionam eleitores. Projetos escondidos, como os de saneamento, s\u00e3o relegados ao segundo plano. Um governo eficaz \u00e9 aquele com aptid\u00e3o para prever problemas e antecipar solu\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 triste concluir que as calamidades de hoje se repetiram no passado e ser\u00e3o vividas no amanh\u00e3. Um eterno retorno, um eterno recome\u00e7o. O olhar de Caramelo, o cavalo no telhado, parece responder ao presidente Lula, que fez a provoca\u00e7\u00e3o: o que estaria ela pensando? Ora, pensando na malandragem que dita a conduta de demagogos, oportunistas, gente que tenta tirar proveito da mis\u00e9ria humana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O mspontocom publica semanalmente artigo do professor Gaud\u00eancio Torquato Torquato \u00e9 escritor, jornalista, professor titular da USP e consultor pol\u00edtico &nbsp; A foto \u00e9 emblem\u00e1tica. Um cavalo no alto do telhado de uma casa, olhando para a \u00e1gua que o cerca. Sem enxergar um palmo de terra firme que a encoraje a sair do desconforto. 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