{"id":195675,"date":"2024-11-26T04:52:45","date_gmt":"2024-11-26T08:52:45","guid":{"rendered":"https:\/\/mspontocom.com.br\/site\/?p=195675"},"modified":"2024-11-26T09:35:12","modified_gmt":"2024-11-26T13:35:12","slug":"artigo-gaudencio-torquato-o-leao-e-a-gazela","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mspontocom.com.br\/site\/artigo-gaudencio-torquato-o-leao-e-a-gazela\/","title":{"rendered":"Artigo Gaud\u00eancio Torquato | O le\u00e3o e a gazela"},"content":{"rendered":"<table border=\"0\" width=\"100%\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"0\">\n<tbody>\n<tr>\n<td align=\"center\"><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td align=\"center\"><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td align=\"center\">\n<table border=\"0\" width=\"100%\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"0\">\n<tbody>\n<tr>\n<td align=\"center\" valign=\"top\">\n<div class=\"m_4709737941161015148he-col m_4709737941161015148he-last\">\n<table class=\"m_4709737941161015148he-col\" border=\"0\" width=\"100%\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"0\" align=\"center\">\n<tbody>\n<tr>\n<td align=\"center\">&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<table border=\"0\" width=\"100%\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"0\">\n<tbody>\n<tr>\n<td><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-195681\" src=\"https:\/\/mspontocom.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/site-artigo-gaudencio-torquato-o-leao-e-a-gazela-gaudencio1.jpg\" alt=\"\" width=\"1626\" height=\"789\" srcset=\"https:\/\/mspontocom.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/site-artigo-gaudencio-torquato-o-leao-e-a-gazela-gaudencio1.jpg 1626w, https:\/\/mspontocom.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/site-artigo-gaudencio-torquato-o-leao-e-a-gazela-gaudencio1-260x126.jpg 260w, https:\/\/mspontocom.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/site-artigo-gaudencio-torquato-o-leao-e-a-gazela-gaudencio1-1024x497.jpg 1024w, https:\/\/mspontocom.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/site-artigo-gaudencio-torquato-o-leao-e-a-gazela-gaudencio1-768x373.jpg 768w, https:\/\/mspontocom.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/site-artigo-gaudencio-torquato-o-leao-e-a-gazela-gaudencio1-1536x745.jpg 1536w\" sizes=\"auto, (max-width: 1626px) 100vw, 1626px\" \/>Daqui a pouco, chega dezembro, o m\u00eas que carrega um largo espa\u00e7o para reflex\u00e3o. Um tempo que nos convida a pensar sobre as nossas vidas, a partir da insensatez desses tempos turbulentos. Tempo de recauchutar o esp\u00edrito. Aproveito para sugerir uma pauta tem\u00e1tica, pin\u00e7ando fatos, historinhas e um ap\u00f3logo, escolhidos para iniciar uma breve leitura do cotidiano.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>H\u00e1 dias, um empres\u00e1rio foi assassinado no aeroporto de Cumbica, em S\u00e3o Paulo, ao voltar com a namorada de uma a viagem a Alagoas. Fuzilado com balas de fuzil, a mando, dizem, do PCC. Pretendia fazer de sua dela\u00e7\u00e3o premiada passaporte para continuar a viver a vida na festan\u00e7a. Dispensou, incr\u00edvel, a cobertura do programa de \u201cprote\u00e7\u00e3o \u00e0 testemunha\u201d. Arriscou-se, assim, ao fuzilamento, achando que policiais contratados para proteger seus passos lhe garantiriam plena seguran\u00e7a. A investiga\u00e7\u00e3o levanta suspeitas sobre seus seguran\u00e7as.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O segundo epis\u00f3dio \u00e9 o de um motoqueiro que fazia muito barulho com sua moto. Em um sem\u00e1foro, em S\u00e3o Paulo, policiais o pararam. E o castigaram de modo inusitado. Colocaram o motoqueiro com os ouvidos na boca do escapamento da moto e baixaram o p\u00e9 no acelerador. Um ronco infernal. O rapaz n\u00e3o conseguia tapar os ouvidos, eis que suas m\u00e3os estavam contidas pelos policiais. Puni\u00e7\u00e3o que lembra tempos imemoriais.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Insensatez, loucura, banaliza\u00e7\u00e3o da criminalidade, frieza ou simplesmente um fragmento da brutalidade infernal desses tempos ditos de globaliza\u00e7\u00e3o? O assassinato do empres\u00e1rio mostra o poder informal, as for\u00e7as da viol\u00eancia, suplantando o poder formal do Estado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Os dois fatos t\u00eam mais significados que a simples fotografia do cen\u00e1rio de terror que estamos vendo. Expressam o estado il\u00f3gico, antin\u00f4mico e alienado de um mundo em que os princ\u00edpios da efici\u00eancia (e a\u00ed, Elon Musk?), a meta da competitividade a qualquer custo, da concorr\u00eancia e a\u00e9tica, est\u00e3o tornando as pessoas infelizes, solit\u00e1rias e menos solid\u00e1rias.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Domenico de Masi, soci\u00f3logo italiano, autor de\u00a0O Futuro do Trabalho,\u00a0pin\u00e7a o ap\u00f3logo do Le\u00e3o e da Gazela para mostrar a que ponto chega a esquizofrenia b\u00e1rbara das ruas e dos ambientes de trabalho, que se transformam em campos de guerras da modernidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A historinha \u00e9 emblem\u00e1tica:\u00a0\u201cToda manh\u00e3, na \u00c1frica, uma gazela desperta. Sabe que dever\u00e1 correr mais depressa do que o le\u00e3o para n\u00e3o ser devorada. Toda manh\u00e3, na \u00c1frica, um le\u00e3o desperta. Sabe que dever\u00e1 correr mais que a gazela para n\u00e3o morrer de fome. Quando o sol surge, n\u00e3o importa se voc\u00ea \u00e9 um le\u00e3o ou uma gazela: \u00e9 melhor que comece a correr\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Esse lembrete \u00e9 exibido em ambientes de trabalho como profiss\u00e3o de f\u00e9 de executivos e dirigentes empresariais. \u00c0 primeira vista, parece um bom conselho para quem quer vencer na vida. Trata-se, por\u00e9m, de uma exalta\u00e7\u00e3o \u00e0 barb\u00e1rie. Basta intuir que, pelo conselho, \u201cle\u00f5es humanos\u201d (aspas nossas) s\u00e3o autorizados a agarrar \u201cgazelas humanas\u201d (aspas nossas), que, apavoradas, devem se desdobrar para realizar suas tarefas ou a se esconder para fugir das intemp\u00e9ries das ruas e do trabalho (ou dos ataques dos le\u00f5es). \u00c9 evidente o est\u00edmulo ao instinto da viol\u00eancia, ao cultivo dos perfis agressivos, \u00e0s lutas por espa\u00e7o e poder, \u00e0s t\u00e1ticas a\u00e9ticas e aos golpes trai\u00e7oeiros, tudo justificado pela necessidade da competitividade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Nessa arena de \u201cle\u00f5es e gazelas\u201d, a alternativa que se apresenta \u00e9 \u00fanica: correr ou matar. Escapar ou morrer. E \u00e9 isso que se v\u00ea nos corredores da morte, nos ambientes de trabalho competitivos, no ch\u00e3o das f\u00e1bricas, nos pal\u00e1cios e nas ruas. Afinal de contas, ladr\u00f5es que surripiam calmamente celulares (roubam e se afastam da v\u00edtima andando calmamente pela cal\u00e7ada), ele mesmo um \u201cle\u00e3o faminto\u201d (dinheiro, drogas, satisfa\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica), \u00e9 produto de um meio cada vez mais degradado. A est\u00e9tica de medo, subordina\u00e7\u00e3o e culto \u00e0 tecnologia dos teatros de competi\u00e7\u00e3o, montados nos ambientes de trabalho, soma-se \u00e0 est\u00e9tica de banaliza\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia nas ruas, cuja multiplicidade \u00e9 assombrosa: as cidades t\u00eam seus servi\u00e7os deteriorados, um tormento que torna a vida massacrante; a viol\u00eancia da mis\u00e9ria absoluta, que exclui milh\u00f5es de pessoas, principalmente contingentes marginalizados das periferias urbanas; a viol\u00eancia contra o menor e pelo adolescente infrator; a viol\u00eancia contra mulheres (o feminic\u00eddio), muito discriminadas; a viol\u00eancia \u00e9tnica; a viol\u00eancia da falta de oportunidades e assim por diante.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Eis o paradoxo da modernidade. Esse caldeir\u00e3o, que deveria ser quente, pela alta temperatura das situa\u00e7\u00f5es, est\u00e1 transfigurando a sociedade em um ente frio, compartimentalizado em grupos e feudos, recortado por imensos\u00a0apartheids\u00a0econ\u00f4micos e sociais. De outro lado, a organodemocracia, a \u201cdemocracia\u201d dos departamentos criados nos ambientes hierarquizados do trabalho privado, est\u00e1 amortecendo o conceito da sociedade convivial, sociedade voltada para os cidad\u00e3os e n\u00e3o para a produ\u00e7\u00e3o. Os burocratas n\u00e3o sentem o cheiro das ruas e os dirigentes empresariais s\u00f3 t\u00eam olhos para a produtividade, n\u00e3o raro procurando f\u00f3rmulas para atenuar os golpes furiosos do tacape de impostos e tributos governamentais. Sob esse desenho, n\u00e3o h\u00e1 tempo, interesse ou motiva\u00e7\u00e3o para se tratar de outras quest\u00f5es e das coisas do esp\u00edrito.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Onde est\u00e3o os valores da solidariedade, do companheirismo, da do\u00e7ura nas rela\u00e7\u00f5es do trabalho, da amizade, da comunh\u00e3o, do jogo em equipe? Est\u00e3o se despedindo da Humanidade. Em seu lugar, surge uma modelagem t\u00e9trica, um aparato desordeiro, um jogo mal\u00e9fico, altamente competitivo, que convive com golpes, morte, assassinatos, trai\u00e7\u00f5es, desprezo \u00e0 vida. Fechando a galeria da insensatez, aparecem bandidos nas ruas usando camisetas com Cristo, Gandhi ou santos de sua venera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Eis o mundo alienado. Que Deus nos proteja do apocalipse. Antes que m\u00edsseis intercontinentais (esses que a R\u00fassia come\u00e7a a usar na guerra contra a Ucr\u00e2nia) caiam sobre nossas cabe\u00e7as.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td align=\"center\">\n<table border=\"0\" width=\"100%\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"0\">\n<tbody>\n<tr>\n<td align=\"center\" valign=\"top\">\n<div class=\"m_4709737941161015148he-col m_4709737941161015148he-last\">\n<table class=\"m_4709737941161015148he-col\" border=\"0\" width=\"100%\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"0\" align=\"center\">\n<tbody>\n<tr>\n<td align=\"center\">\n<table style=\"width: 100%; height: 47px;\" border=\"0\" width=\"100%\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"0\">\n<tbody>\n<tr style=\"height: 47px;\">\n<td style=\"height: 47px;\"><strong>Gaud\u00eancio Torquato \u00e9 escritor, jornalista, professor titular da USP e consultor pol\u00edtico<\/strong><\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; &nbsp; Daqui a pouco, chega dezembro, o m\u00eas que carrega um largo espa\u00e7o para reflex\u00e3o. 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