{"id":195848,"date":"2024-12-03T04:00:51","date_gmt":"2024-12-03T08:00:51","guid":{"rendered":"https:\/\/mspontocom.com.br\/site\/?p=195848"},"modified":"2024-12-03T05:40:23","modified_gmt":"2024-12-03T09:40:23","slug":"artigo-gaudencio-torquato-patrimonialismo-a-gigantesca-arvore","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mspontocom.com.br\/site\/artigo-gaudencio-torquato-patrimonialismo-a-gigantesca-arvore\/","title":{"rendered":"Artigo Gaud\u00eancio Torquato | Patrimonialismo, a gigantesca \u00e1rvore"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-195849\" src=\"https:\/\/mspontocom.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/site-artigo-gaudencio-torquato-patrimonialismo-a-gigantesca-arvore-gaudencio1.jpg\" alt=\"\" width=\"1626\" height=\"789\" srcset=\"https:\/\/mspontocom.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/site-artigo-gaudencio-torquato-patrimonialismo-a-gigantesca-arvore-gaudencio1.jpg 1626w, https:\/\/mspontocom.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/site-artigo-gaudencio-torquato-patrimonialismo-a-gigantesca-arvore-gaudencio1-260x126.jpg 260w, https:\/\/mspontocom.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/site-artigo-gaudencio-torquato-patrimonialismo-a-gigantesca-arvore-gaudencio1-1024x497.jpg 1024w, https:\/\/mspontocom.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/site-artigo-gaudencio-torquato-patrimonialismo-a-gigantesca-arvore-gaudencio1-768x373.jpg 768w, https:\/\/mspontocom.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/site-artigo-gaudencio-torquato-patrimonialismo-a-gigantesca-arvore-gaudencio1-1536x745.jpg 1536w\" sizes=\"auto, (max-width: 1626px) 100vw, 1626px\" \/>O <span style=\"color: #ff0000;\"><strong>mspontocom<\/strong><\/span> publica semanalmente artigo do professor da USP e cientista pol\u00edtico, Gaud\u00eancio Torquato.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Um mar de den\u00fancias toma conta do territ\u00f3rio. Por todos os lados, chovem den\u00fancias. A P\u00e1tria Amada est\u00e1 mais parecendo uma P\u00e1tria des(amada). \u00a0Estamos vendo coisas erradas do Norte ao Sul. Ou ser\u00e1 que essa onda oce\u00e2nica do denuncismo \u00e9 coisa normal? Tentemos entender. H\u00e1 de se compreender a \u00edndole do Brasil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Tudo come\u00e7a com a \u00c1rvore do patrimonialismo, a \u00e2ncora dos ismos em nossa cultura pol\u00edtica: caciquismo, fisiologismo, familismo, filhotes do patrimonialismo. E de onde vem essa sopa? Da heran\u00e7a deixada por dom Jo\u00e3o III, entre 1534 e 1536, quando criou as capitanias heredit\u00e1rias e as distribuiu entre os donat\u00e1rios.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Tem origem a\u00ed a imbrica\u00e7\u00e3o entre os espa\u00e7os p\u00fablicos e privados. Origina-se a\u00ed essa mistura. Os donat\u00e1rios entendiam que as capitanias eram suas, propriedade privada. Esse \u00e9 o ber\u00e7o do patrimonialismo. A corrup\u00e7\u00e3o nasce no leito desse rio. O Brasil \u00e9 o Pa\u00eds mais corrupto da Am\u00e9rica Latina. Numa lista de 146 Pa\u00edses, ocupamos o 29o lugar, segundo a Transpar\u00eancia Internacional. Nos 5.565 munic\u00edpios brasileiros, a corrup\u00e7\u00e3o grassa em 85%.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">E onde nasce a corrup\u00e7\u00e3o? Resposta: na \u00edndole de nossa comunidade pol\u00edtica. Resgato o chiste. H\u00e1 quatro tipos de sociedade no mundo: a inglesa, liberal, onde tudo \u00e9 permitido, salvo o que \u00e9 proibido; a alem\u00e3, durona, onde tudo \u00e9 proibido, salvo o que for permitido; a ditatorial, tipo Cor\u00e9ia do Norte, onde tudo \u00e9 proibido, mesmo o que \u00e9 permitido; e a brasileira, onde tudo \u00e9 permitido mesmo o que \u00e9 proibido. Nelson Rodrigues dizia que o brasileiro padece do complexo de vira-lata, traduzindo a inferioridade em que o nativo se coloca ante o mundo. Hoje, h\u00e1 um complexo maior: o de Fara\u00f3. Haja olhos para contemplar a arquitetura fara\u00f4nica que se espraia pelo Pa\u00eds na forma de constru\u00e7\u00f5es suntuosas, edif\u00edcios majestosos, obras de desenhos arrojados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Que pa\u00eds fara\u00f4nico. O Brasil se habilita a ser o h\u00e1bitat ideal para abrigar o sono eterno dos fara\u00f3s, fustigados pelo eco da turba que chega \u00e0s suas tumbas. Se suas majestades s\u00f3 se sentem confort\u00e1veis em\u00a0<em>pharao-onis<\/em>, termo do velho latim para significar \u201ccasa elevada\u201d, \u00e9 isso que encontrar\u00e3o no Planalto brasiliense, tamb\u00e9m conhecido como morada dos fara\u00f3s no s\u00e9culo 21. O fausto, a opul\u00eancia, o resplendor, a exuber\u00e2ncia se elevam nos espa\u00e7os, sob o ditame inquestion\u00e1vel de que, se a obra tiver de ser constru\u00edda em Bras\u00edlia, haver\u00e1 de receber o selo de Oscar Niemeyer e, por consequ\u00eancia, n\u00e3o sofrer\u00e1 limites de gastos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Vejam o pacote do Haddad, lan\u00e7ado esta semana. Um vasto e t\u00edmido programa. Quiseram fazer reforma fiscal com reforma do IR, para agradar a classe m\u00e9dia. Lula s\u00f3 pensa naquilo, em 2026. O mercado reagiu. Um d\u00f3lar tem o poder de comprar mais de R$ 6. E tome infla\u00e7\u00e3o pela frente. A economia ter\u00e1 a for\u00e7a para derrotar Lula ou reeleg\u00ea-lo. Da\u00ed a busca de Lula pelo aumento de sua base de apoio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Nossa legisla\u00e7\u00e3o abre portas. Deixa de lado o princ\u00edpio da equidade da representa\u00e7\u00e3o para compensar os desequil\u00edbrios regionais pela via parlamentar, agravando uns partidos e beneficiando outros. Assim, o sistema torna-se injusto. A indisciplina partid\u00e1ria leva o presidente a sair a campo, tentando cooptar alian\u00e7as para formar uma coaliz\u00e3o. A composi\u00e7\u00e3o do governo implica, necessariamente, inser\u00e7\u00e3o de partidos na administra\u00e7\u00e3o, gerando ferrenha disputa entre eles. A consequ\u00eancia se faz sentir na permanente instabilidade das rela\u00e7\u00f5es entre Poderes Executivo e Legislativo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">A base da maioria, vetor de democracias consolidadas, \u00e9 amea\u00e7ada. Para aumentar os buracos o poder presidencial patrocina uma democracia delegativa, dentro da qual o chefe do Executivo usa e abusa de medidas excepcionais para legislar, no caso, as medidas provis\u00f3rias e emendas \u00e0 Constitui\u00e7\u00e3o. Algu\u00e9m j\u00e1 disse:\u00a0<em>\u201cO governo \u00e9 como se fosse um pote de \u00e1gua benta, cabe tudo ali.\u201d\u00a0<\/em>Acrescento: foi o pr\u00f3prio Lula quem disse isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Entende-se, pela imagem extravagante, que a \u00e1gua aben\u00e7oada \u00e9 a mais apropriada para molhar dedos, sejam eles sujos ou limpos, de crist\u00e3os e n\u00e3o-crist\u00e3os que se benzem nos templos. Desse modo, a democracia brasileira seria o h\u00e1bitat de esp\u00e9cimes que, de t\u00e3o variados, s\u00f3 mesmo aqui encontram condi\u00e7\u00f5es de sobreviv\u00eancia. Basta contemplar o arranjo federativo, que abriga figuras como presidencialismo imperial, bicameralismo, sistemas proporcional e majorit\u00e1rio e multipartidarismo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Em suma, h\u00e1 um PIB e meio desperdi\u00e7ado no meio dessa bagun\u00e7a, ou seja, jogam-se no lixo R$ 5 trilh\u00f5es. Se a montanha de riquezas perdidas pudesse ser preservada, o Pa\u00eds estaria, h\u00e1 tempos, no ranking mais avan\u00e7ado das pot\u00eancias. A que se deve isso? Primeiro, a uma cultura pol\u00edtica plasmada no patrimonialismo, explicada anteriormente. O Estado \u00e9 um ente criado para garantir nosso alimento e bem-estar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">O jeito perdul\u00e1rio de ser do brasileiro come\u00e7a, portanto, com a vis\u00e3o do Estado-m\u00e3e, providencial e protetor, no seio do qual se abrigam a ambi\u00e7\u00e3o das elites pol\u00edticas e o utilitarismo de oportunistas. O (mau) exemplo dado pelos fara\u00f3s do topo da pir\u00e2mide acaba descendo pelas camadas abaixo, na esteira do ditado \u201cou restaure-se a moralidade ou nos locupletemos\u201d, que uns atribuem a Stanislaw Ponte Preta e outros ao Bar\u00e3o de Itarar\u00e9.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">E assim, com todos locupletados nas frentes da pol\u00edtica, resta rezar um Pai Nosso, sob a cren\u00e7a de que Deus \u00e9 brasileiro e haver\u00e1 de nos salvar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O mspontocom publica semanalmente artigo do professor da USP e cientista pol\u00edtico, Gaud\u00eancio Torquato. Um mar de den\u00fancias toma conta do territ\u00f3rio. Por todos os lados, chovem den\u00fancias. A P\u00e1tria Amada est\u00e1 mais parecendo uma P\u00e1tria des(amada). \u00a0Estamos vendo coisas erradas do Norte ao Sul. 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