{"id":203785,"date":"2025-10-07T04:00:38","date_gmt":"2025-10-07T08:00:38","guid":{"rendered":"https:\/\/mspontocom.com.br\/site\/?p=203785"},"modified":"2025-10-07T06:35:04","modified_gmt":"2025-10-07T10:35:04","slug":"gaudencio-torquato-a-piramide-o-losango-e-a-pera","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mspontocom.com.br\/site\/gaudencio-torquato-a-piramide-o-losango-e-a-pera\/","title":{"rendered":"Gaud\u00eancio Torquato: A pir\u00e2mide, o losango e a p\u00eara"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-203787\" src=\"http:\/\/mspontocom.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/site-gaudencio-torquato-a-piramide-o-losango-e-a-pera-gaudencio.jpg\" alt=\"\" width=\"1626\" height=\"789\" srcset=\"https:\/\/mspontocom.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/site-gaudencio-torquato-a-piramide-o-losango-e-a-pera-gaudencio.jpg 1626w, https:\/\/mspontocom.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/site-gaudencio-torquato-a-piramide-o-losango-e-a-pera-gaudencio-260x126.jpg 260w, https:\/\/mspontocom.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/site-gaudencio-torquato-a-piramide-o-losango-e-a-pera-gaudencio-1024x497.jpg 1024w, https:\/\/mspontocom.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/site-gaudencio-torquato-a-piramide-o-losango-e-a-pera-gaudencio-768x373.jpg 768w, https:\/\/mspontocom.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/site-gaudencio-torquato-a-piramide-o-losango-e-a-pera-gaudencio-1536x745.jpg 1536w\" sizes=\"auto, (max-width: 1626px) 100vw, 1626px\" \/>O <strong>mspontocom<\/strong> publica semanalmente artigo de Gaud\u00eancio Torquato.<\/p>\n<p>Torquato \u00e9 escritor, jornalista, professor titular da USP e consultor pol\u00edtico<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<table border=\"0\" width=\"100%\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"0\">\n<tbody>\n<tr>\n<td align=\"center\" valign=\"top\">\n<div class=\"m_7599476608804191901he-col m_7599476608804191901he-last\">\n<table class=\"m_7599476608804191901he-col\" border=\"0\" width=\"100%\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"0\" align=\"center\">\n<tbody>\n<tr>\n<td align=\"center\">\n<table border=\"0\" width=\"100%\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"0\">\n<tbody>\n<tr>\n<td>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Por d\u00e9cadas, a estratifica\u00e7\u00e3o de classes no Brasil foi tradicionalmente representada por uma pir\u00e2mide social \u2013 ou tri\u00e2ngulo \u2013 indicando a enorme desigualdade existente. Essa met\u00e1fora refletia uma realidade em que uma minoria concentrava renda no topo (classes A e B) e a vasta maioria de baixa renda compunha a base larga da sociedade. No in\u00edcio dos 2000, cerca de dois ter\u00e7os da popula\u00e7\u00e3o brasileira encontravam-se nas classes D e E, as faixas de menor renda. Em contrapartida, as classes de maior renda (A\/B) continuaram a representar parcela pequena da sociedade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Essa estrutura piramidal estava associada a alt\u00edssimos \u00edndices de desigualdade de renda. Indicadores, como o coeficiente de Gini, mantinham-se em patamares elevados; isto \u00e9, raros indiv\u00edduos conseguiam ascender da base para n\u00edveis acima. Nas d\u00e9cadas finais do s\u00e9culo XX e in\u00edcio do XXI, predominavam as classes baixas; a classe m\u00e9dia era relativamente pequena e a elite econ\u00f4mica restrita a poucos. A partir dos anos 2000, especialmente entre 2003 e 2014, o Brasil experimentou significativa mobilidade social. Diversos fatores contribu\u00edram para esse fen\u00f4meno: estabilidade econ\u00f4mica p\u00f3s-Plano Real, crescimento do emprego formal, valoriza\u00e7\u00e3o do sal\u00e1rio-m\u00ednimo, amplia\u00e7\u00e3o do cr\u00e9dito e programas de transfer\u00eancia de renda (como o Bolsa Fam\u00edlia). Como resultado, milh\u00f5es de brasileiros sa\u00edram da pobreza e ingressaram na classe m\u00e9dia. Estima-se que 42 milh\u00f5es de pessoas ascenderam \u00e0 chamada classe C nesse per\u00edodo compondo a chamada &#8220;nova classe m\u00e9dia\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Essas transforma\u00e7\u00f5es alteraram o formato da distribui\u00e7\u00e3o de classes. A tradicional pir\u00e2mide social deu lugar a um losango; o meio da estrutura (classe C) inflou e passou a abrigar a maioria da popula\u00e7\u00e3o. Em 2024, as classes m\u00e9dias (A, B e C) representavam 50,1% dos brasileiros, sendo o maior contingente populacional do pa\u00eds, um pouco acima do \u00edndice do contingente populacional das classes D e E (49,9%). H\u00e1 10 anos, esse \u00edndice era de aproximadamente 53%\u201356% da popula\u00e7\u00e3o, sendo, na \u00e9poca o estrato majorit\u00e1rio. Como se v\u00ea, a base tem diminu\u00eddo proporcionalmente: o percentual somado das classes D e E (49,9%) caiu para em torno de 25%\u201330%, deixando de ser mais da metade da popula\u00e7\u00e3o como fora nos anos 90. Tamb\u00e9m o topo se ampliou um pouco, com classes A\/B chegando a cerca de 20% da popula\u00e7\u00e3o em alguns levantamentos \u2013 reflexo de que muitos brasileiros melhoraram de renda e passaram a integrar estratos mais altos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em 2003 (esquerda), prevalecia o modelo piramidal: uma base larga de 49% da popula\u00e7\u00e3o nas classes baixas (D\/E), uma classe m\u00e9dia relativamente menor (38% da popula\u00e7\u00e3o, classe C) e um topo estreito (cerca de 13% nas classes A\/B). J\u00e1 em 2015 (direita), observa-se um losango social: a maioria (56%) no centro como classe m\u00e9dia, enquanto topo e base ficaram equivalentes (22% cada).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O auge dessa estrutura em losango ocorreu no come\u00e7o dos anos 2010, quando o Brasil viu a &#8220;classe C&#8221; tornar-se protagonista. Observava-se otimismo no mercado interno, impulsionado pelos novos consumidores oriundos dessa classe m\u00e9dia emergente. Estudos da \u00e9poca destacaram que a hist\u00f3rica pir\u00e2mide social brasileira havia se transformado num losango, com o centro ocupando o maior contingente populacional. Em outras palavras, por volta de 2010-2014 o Brasil tinha menos pessoas na pobreza extrema, muito mais gente na classe m\u00e9dia, e uma elite um pouco menos exclusiva \u2013 um formato pr\u00f3ximo ao de um losango, em que topo e base s\u00e3o relativamente estreitos em compara\u00e7\u00e3o ao meio da figura.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O cen\u00e1rio de crise, a partir de 2015, reverteu parte dos ganhos sociais obtidos na d\u00e9cada anterior. O desemprego aumentou, a renda m\u00e9dia caiu e muitas fam\u00edlias da ent\u00e3o nova classe m\u00e9dia perderam poder aquisitivo. Consequentemente, milh\u00f5es de brasileiros que haviam ascendido \u00e0 classe C ca\u00edram de volta para as classes D. Entre 2015 e 2017 cerca de 10 milh\u00f5es de pessoas da classe C regrediriam para as classes D\/E, praticamente anulando grande parte da mobilidade ascendente registrada entre 2006 e 2012.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em 2014, as classes D\/E correspondiam ao menor percentual hist\u00f3rico, cerca de 47% da popula\u00e7\u00e3o. \u00a0Essa propor\u00e7\u00e3o voltou a subir em 2015, alcan\u00e7ando 51% em 2016. Mais da metade dos brasileiros retornou \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de baixa renda, reconfigurando a estrutura social para um formato mais pr\u00f3ximo de uma pir\u00e2mide. Ao mesmo tempo, a classe C encolheu em tamanho relativo, deixando de ser a maioria absoluta. Esse movimento continuou ao longo dos anos seguintes. Em 2017 e 2018, as classes D\/E permaneciam em torno de 50% da popula\u00e7\u00e3o, evidenciando a persist\u00eancia de uma grande base de renda baixa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A crise fiscal e os ajustes econ\u00f4micos reduziram investimentos em pol\u00edticas sociais, enquanto a lenta recupera\u00e7\u00e3o do PIB manteve o desemprego elevado. Em 2020, a pandemia de COVID-19 atingiu duramente a economia, derrubando a renda de milh\u00f5es de trabalhadores informais e prec\u00e1rios. Embora medidas emergenciais (como o aux\u00edlio emergencial) tenham amenizado temporariamente a pobreza em 2020, seu efeito foi passageiro. Em 2021, com a retirada parcial desses aux\u00edlios, a situa\u00e7\u00e3o dos mais pobres voltou a se deteriorar. Dados desse per\u00edodo mostram que as classes D\/E ainda representavam cerca de 51% dos domic\u00edlios brasileiros em 2021 \u2013 praticamente o dobro da participa\u00e7\u00e3o das classes A e B somadas. A &#8220;base do tri\u00e2ngulo&#8221; voltou a se expandir na segunda metade da d\u00e9cada de 2010, indicando um retorno a um perfil mais desigual ap\u00f3s o breve interl\u00fadio do losango.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A estrutura social brasileira em 2022 mant\u00e9m um car\u00e1ter bastante desigual, com a base da pir\u00e2mide ainda maior que o topo. Aproximadamente 50,7% dos domic\u00edlios est\u00e3o hoje nas classes D\/E, ou seja, englobam mais da metade da popula\u00e7\u00e3o de baixa renda, ao passo que apenas 16% (aprox.) encontram-se nas classes altas A e B. A classe m\u00e9dia (classe C) constitui cerca de um ter\u00e7o da popula\u00e7\u00e3o (33%) \u2013 ainda significativa, por\u00e9m aqu\u00e9m do n\u00edvel verificado no auge da nova classe m\u00e9dia anos atr\u00e1s. Em outras palavras, o topo da distribui\u00e7\u00e3o continua bastante estreito comparado \u00e0 base, e a maioria dos brasileiros se concentra nas faixas de renda m\u00e9dia-baixa ou baixa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Esse quadro indica que a met\u00e1fora do losango social j\u00e1 n\u00e3o representa fielmente a realidade atual. O losango pressup\u00f5e topo e base de tamanho semelhante e uma maioria no centro; hoje a base permanece proporcionalmente mais larga que o topo, destoando de um losango sim\u00e9trico. Somente por volta de 2028 a propor\u00e7\u00e3o de brasileiros nas classes D\/E retornaria ao patamar de 49%, o melhor da s\u00e9rie hist\u00f3rica). Portanto, no cen\u00e1rio presente e pr\u00f3ximo, a estratifica\u00e7\u00e3o social brasileira se assemelha mais a um tri\u00e2ngulo ou mesmo a uma &#8220;P\u00eara&#8221;, com topo afunilado e base larga.<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O mspontocom publica semanalmente artigo de Gaud\u00eancio Torquato. Torquato \u00e9 escritor, jornalista, professor titular da USP e consultor pol\u00edtico &nbsp; &nbsp; &nbsp; Por d\u00e9cadas, a estratifica\u00e7\u00e3o de classes no Brasil foi tradicionalmente representada por uma pir\u00e2mide social \u2013 ou tri\u00e2ngulo \u2013 indicando a enorme desigualdade existente. 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