Opinião: A metamorfose do debate sobre as urnas
No dinâmico folclore político brasileiro, poucas coisas são tão maleáveis quanto a fé cega nas urnas eletrônicas.
O dogma da infalibilidade do software virou cláusula de pétala: para uns, duvidar do sistema é um ato de fé cívica; para outros, virou crime lesa-pátria digno de ineligibilidade — como bem aprendeu Jair Bolsonaro após sua célebre reunião com embaixadores.
Mas a história, essa testemunha inconveniente, guarda um acervo de “pérolas” que provam que desconfiar da maquininha já foi um esporte nacional praticado com entusiasmo por praticamente todas as correntes ideológicas.
Basta folhear os jornais para encontrar dois pesos, várias medidas e uma amnésia conveniente.
Em 2002, quando as urnas ainda engatinhavam na preferência popular, o então candidato Luiz Inácio Lula da Silva não teve dúvidas: questionou o sistema digital e defendeu publicamente o comprovante impresso.
Anos mais tarde, em 2010, ao perder a disputa para o governo do Maranhão, o hoje ministro do STF Flávio Dino proclamou aos quatro ventos que o processo possuía “brechas” e precisava ser “melhor auditado”.
Aliás, quando era deputado em 2009, Dino foi o relator de uma reforma eleitoral justamente para instituir o voto impresso, apontando suspeitas sobre a centralização tecnológica no Judiciário.
Mas isso, claro, foram “outros tempos”.
E a lista de convertidos ao ceticismo temporário não para por aí.
Logo após a derrota de 2018, Gleisi Hoffmann (PT) cravou sem piscar que a eleição presidencial fora “maculado por vícios e fraudes”.
Figuras proeminentes como Roberto Requião e Carlos Lupi (este último na tradição brizolista) passaram décadas exigindo uma “urna de quarta geração” com contraprova física na gavelinha transparente para evitar “fraudes no software”.
A metamorfose do debate sobre as urnas
A verdade é que, até meados dos anos 2000, criticar as urnas era quase um pré-requisito para filiação à esquerda, que temia o controle tecnológico nas mãos de burocratas e empresas privadas sem auditoria visual.
Nomes do centro à esquerda, como Ciro Gomes, Simone Tebet e Carlos Zarattini, ostentam em seus currículos discursos inflamados cobrança por mecanismos adicionais de checagem.
Até no próprio Supremo Tribunal Federal o tom ganha matizes interessantes.
O ministro Luiz Fux lembrou recentemente que o Congresso tem a legítima prerrogativa constitucional de propor auditorias físicas, ponderando que a segurança do sistema nem sempre é apreciada adequadamente.
O espetáculo da política nacional revela que a urna eletrônica é o único milagre tecnológico do mundo cuja perfeição varia de acordo com a vitória ou a derrota na apuração.
O que ontem era cobrança por transparência republicana hoje vira atentado às instituições.
Depende apenas de quem segura o microfone e de quem chora o resultado.
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