
O termo de posse de Lula e a sua “fuga”: Memória curta
A memória política no Brasil é um artigo curioso: dura exatamente o tempo necessário para o próximo discurso no palanque.
Ao tripudiar publicamente sobre a saída de Flávio Bolsonaro do país — classificada por aliados como busca por segurança diante de um cenário de perseguição —, o presidente Lula resolveu vestir o manto da bravura heroica.
Com peito aberto e ar de mártir, disparou sem piscar:
“Quando fui acusado, tive muito convite para fugir do Brasil, ir para embaixada, eu resolvi ficar aqui”.
É uma narrativa bonita, quase cinematográfica. O único problema é que a história real insiste em estragar o roteiro.
Para quem sofre de amnésia seletiva, vale fazer uma breve viagem no tempo até março de 2016.
Naquele momento, acuado pela 13ª Vara Federal de Curitiba e na iminência de um mandado de prisão do ex-juiz Sergio Moro, a solução encontrada pelo petista não envolveu asilo diplomático distante, mas sim o bom e velho atalho institucional da Esplanada dos Ministérios.
O termo de posse de Lula e a memória curta
Quem não se lembra da antológica ligação telefônica vazada entre a então presidente Dilma Rousseff e Lula?
O diálogo entrou para o folclore político nacional com direito a codinome e encomenda urgente:
“Seguinte, eu tô mandando o ‘Bessias’ junto com o papel pra gente ter ele, e só usa em caso de necessidade, que é o termo de posse, tá?!”.
O famigerado “Bessias” era Jorge Rodrigo Araújo Messias — subchefe para Assuntos Jurídicos que, por pura ironia do destino, acabou indicado anos depois pelo próprio petista para uma cadeira no Supremo Tribunal Federal (STF).
A manobra da época era transparente: entregar um papel assinado para conceder foro privilegiado a Lula a poucas horas de um eventual pedido de prisão.
Se isso não foi uma tentativa de “fuga” pela porta dos fundos da burocracia estatal, o conceito de escapatória precisa ser urgentemente reescrito nos dicionários.
Do outro lado da bancada, a saída do senador Flávio Bolsonaro dividiu opiniões.
Aliados como Magno Malta e o próprio Sergio Moro justificaram o deslocamento apontando “anormalidade institucional”, arbitrariedade na retenção de passaportes e falta de garantias de um processo legal justo para a oposição.
Críticas a adversários fazem parte do jogo. O que não dá para engolir sem uma boa gargalhada é a tentativa de Lula de se vender como o líder destemido que jamais buscou saídas de emergência.
Quem tem o termo de posse do “Bessias” no currículo deveria pensar duas vezes antes de acusar qualquer um de sair pela tangente.
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