Quinta, 27 de agosto de 2026 · Campo Grande, MS
Brasil

Quando a Justiça perde a confiança, o crime agradece

A Justiça também precisa olhar para dentro

Há coisas que deveriam ser inegociáveis em uma democracia.

Uma delas é a confiança na Justiça.

Afinal, quando o cidadão é assaltado, enganado, ameaçado ou vê um criminoso voltar rapidamente às ruas, sua última esperança é justamente aquela instituição que deveria garantir que a lei vale para todos.

O problema é quando essa esperança começa a virar desconfiança.

E aí temos um problema muito maior do que uma simples discussão jurídica.

Temos um problema de segurança pública.

A frase que se tornou popular — “a polícia prende e a Justiça solta” — pode até ser simplista.

Mas o que assusta é a quantidade de brasileiros que acredita nela.

Pesquisa Genial/Quaest mostrou que 86% dos entrevistados concordam com essa percepção.

O índice foi praticamente igual entre eleitores de Lula e Bolsonaro.

Ou seja: não é uma questão de direita ou esquerda.

É uma questão de confiança.

E confiança, como sabemos, demora anos para construir e pode desaparecer em cinco minutos.

Enquanto o cidadão espera anos por uma decisão, o Judiciário brasileiro movimenta uma máquina gigantesca.

Levantamento do Tesouro Nacional já apontou que o custo do Judiciário brasileiro chegou a cerca de 1,6% do PIB, muito acima da média dos países analisados.

Em 2022, o gasto total chegou a aproximadamente R$ 159 bilhões.

Não é pouco dinheiro.

É dinheiro suficiente para fazer qualquer contribuinte perguntar se, pagando essa conta, poderia ao menos receber uma Justiça mais rápida e previsível.

E aqui aparece outro detalhe curioso.

Enquanto o cidadão comum aprende que “tempo é dinheiro”, o processo judicial brasileiro parece ter descoberto uma fórmula diferente:

Tempo é recurso processual.

Recorre daqui.

Embarga dali.

Volta para a primeira instância.

Sobe para o tribunal.

Desce novamente.

E, quando o cidadão finalmente pergunta “e a sentença?”, alguém responde:

“Está em análise.”

Calma.

Só faltam mais alguns anos.

Nos últimos anos, operações da Polícia Federal expuseram suspeitas de comercialização de decisões e informações judiciais.

A Operação Sisamnes, por exemplo, começou a partir de investigações sobre servidores ligados a gabinetes do STJ que teriam acessado irregularmente sistemas de elaboração de minutas e comercializado informações privilegiadas.

Mais recentemente, o STF autorizou investigações envolvendo ministros do próprio STJ, entre eles Marco Buzzi e Moura Ribeiro.

As investigações estão em andamento e não significam condenação dos magistrados.

E justamente por isso o assunto é tão sério.

Não se trata de condenar antecipadamente ninguém.

Trata-se de perguntar por que um sistema que deveria representar a última palavra da Justiça precisa ser investigado pela própria Justiça.

É uma pergunta incômoda.

Mas democracia não pode funcionar apenas com perguntas confortáveis.

Há ainda a discussão sobre salários, indenizações, benefícios e os chamados “penduricalhos”.

O problema não é o juiz receber bem.

É evidente que uma função de tamanha responsabilidade precisa ser valorizada.

A pergunta é outra:

Quanto custa essa estrutura e qual é o resultado entregue à sociedade?

Porque, para o trabalhador brasileiro, férias são férias.

Para muita gente, inclusive, férias significam a oportunidade de finalmente descansar depois de meses de trabalho.

No Judiciário, existem regras próprias, adicionais, indenizações e mecanismos de compensação que alimentam o debate sobre privilégios.

E quando a conta é paga pelo contribuinte, a explicação precisa ser ainda mais transparente.

O mspontocom pensa que uma sociedade pode sobreviver a uma Justiça cara.

Pode até sobreviver a uma Justiça lenta.

O que nenhuma democracia deveria aceitar tranquilamente é uma Justiça na qual uma parcela enorme da população não acredita que a punição chegará.

Porque o criminoso também observa.

Se a sensação é de que a polícia trabalha, prende, investiga e apresenta provas, mas o processo se arrasta indefinidamente, alguma coisa começa a acontecer.

O cidadão perde a paciência.

O criminoso perde o medo.

E o Estado perde autoridade.

É aí que aparece um dos maiores perigos: a tentação da população de querer fazer justiça com as próprias mãos.

E isso seria uma tragédia.

Porque, quando cada cidadão decide qual é a sua própria lei, acabou a civilização e começou a barbárie.

Criticar a Justiça não significa ser contra a Justiça.

Muito pelo contrário.

É justamente porque precisamos dela que devemos cobrar que funcione.

Uma Justiça forte não é aquela que jamais pode ser criticada.

É aquela que suporta a crítica, corrige seus erros, pune seus próprios desvios e explica suas decisões.

E talvez esteja aí o ponto principal.

O cidadão não quer uma Justiça perfeita.

Quer uma Justiça previsível, rápida, imparcial e igual para todos.

Porque, quando a população deixa de acreditar que a Justiça fará Justiça, sobra pouco para sustentar a confiança nas instituições.

E quando a confiança desaparece…

Bom, aí o crime agradece.

E o cidadão começa a perguntar:

Quem vai julgar a própria Justiça?