Um vírus devastador nas urnas
A pandemia da Covid-19 não foi apenas uma tragédia sanitária. No Brasil, tornou-se também a principal arma política da eleição presidencial de 2022.
A gestão de Jair Bolsonaro foi submetida a um julgamento diário nas manchetes, nas redes sociais, na CPI da Covid e no debate eleitoral, criando um ambiente em que qualquer defesa do governo parecia irrelevante diante da avalanche de acusações.
A divulgação de documentos envolvendo Anthony Fauci reacendeu questionamentos sobre decisões tomadas durante a pandemia, inclusive discussões internas sobre a comunicação da eficácia das vacinas contra infecção e transmissão.
A decisão do então presidente Joe Biden de conceder um perdão preventivo a Fauci antes de deixar o cargo apenas ampliou as dúvidas e alimentou novas discussões sobre a condução daquele período.
Os documentos foram apresentados por congressistas para questionar a postura do governo em relação a hipóteses de vazamento do vírus no Instituto de Virologia de Wuhan, na China, e ao debate sobre medicamentos como a ivermectina.
Vacinas
Em uma entrada do diário de 13 de agosto de 2022, o epidemiologista detalha bastidores de uma tensão interna para conter um posicionamento do CDC que admitia a perda de eficácia das vacinas.
Fauci afirmou ter pressionado o órgão a recuar de uma declaração de “ausência absoluta de eficácia das vacinas contra infecção e transmissão”.
CPI do Circo
A CPI da Covid, comandada por Omar Aziz, Renan Calheiros e Randolfe Rodrigues, produziu um relatório de mais de mil páginas atribuindo ao então presidente uma série de crimes.
O documento foi tratado por muitos como uma sentença antecipada, embora sua função fosse apenas subsidiar investigações dos órgãos competentes.
“O tempo absolve alguns, condena outros e, às vezes, apenas expõe o que a política tentou esconder.”
Anos depois, o Supremo Tribunal Federal arquivou ações e investigações relacionadas à gestão da pandemia sem denúncia ou condenação de Bolsonaro por genocídio ou crimes contra a humanidade.
Outros pedidos baseados no relatório da CPI igualmente não prosperaram por falta de elementos que sustentassem essas acusações.
A gestão da Covid foi, reconhecidamente, um dos fatores de maior desgaste político para Bolsonaro e influenciou parcela significativa do eleitorado em 2022.
A exploração eleitoral de episódios e posturas adotadas na época afetou a imagem do ex-presidente perante eleitores indecisos
Na democracia, o eleitor decide uma única vez. A verdade, infelizmente, costuma chegar depois.
O mspontocom pergunta: se as informações hoje disponíveis fossem conhecidas naquela campanha, o debate eleitoral teria sido o mesmo?
A democracia depende de escolhas livres, mas escolhas livres exigem informação completa.
A História não muda o resultado das urnas. Mas pode mudar o julgamento sobre quem venceu e quem perdeu.
jornalista Marco Aurélio
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