De Moraes a Dino: as peças do sistema eleitoral
Em 2022, Alexandre de Moraes comandava o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) durante uma eleição marcada por decisões que tiveram forte impacto sobre a campanha presidencial.
Em 2026, o cenário é o mesmo, só mudou de personagem.
Agora, Flávio Dino ocupa uma posição de enorme relevância no Supremo Tribunal Federal e também integra o Tribunal Superior Eleitoral como ministro substituto.
Coincidência?
O leitor que tire suas próprias conclusões.
Em setembro de 2022, o TSE proibiu Jair Bolsonaro de realizar lives de conteúdo eleitoral utilizando espaços e serviços públicos exclusivos da Presidência.
A decisão foi tomada por maioria e determinou a retirada de material das redes sociais.
A justificativa jurídica era clara: impedir que a estrutura pública fosse utilizada em benefício eleitoral.
Até aí, argumento perfeitamente compreensível.
Mas Dilma Roussef usou o palácio do Alvorada para conceder entrevistas de cunho eleitoral em 2014. Bolsonaro foi proibido em 2022.
Mas o episódio deixou uma questão política que permanece quatro anos depois: qual é o limite da interferência da Justiça sobre uma eleição?
Moraes multou Bolsonaro quando acenou para uma multidão que foi ovacioná-lo em Londres, quando dos funerais da Rainha Elisabeth.
Também deu a mínima importância quando negou pedido da campanha do então presidente Jair Bolsonaro para investigar a alegação de irregularidades em inserções eleitorais por emissoras de rádios.
As rádios do Nordeste não transmitiam as propagandas eleitorais de Bolsonato.
A cereja do bolo foi quando Moraes declarou de “Entreguismo nacional”, a reunião de Bolsonaro com embaixadores reclamando das urnas eletrônica.
Fato que depois deixou o ex-presidente inelegível.
Moraes estava à frente do TSE naquele momento.
Agora, em 2026, Flávio Dino aparece no centro de decisões com consequências políticas igualmente relevantes.
O mesmo Flavio Dino que sumiu com as imagens de vídeo da confusão do 8 de Janeiro de 2023.
O que Dino estava fazendo em uma ensolarada tarde de domingo em seu ministério?
É o mesmo Flavio Dino que subiu a Favela da Maré no Rio de Janeiro sem segurança.
Parlamentares de oposição criticaram a forma como o ministro acessou a comunidade.
Houve boatos nas redes sociais sugerindo que a visita ocorreu sem escolta ou que representava uma suposta ligação com o crime organizado.
É o mesmo Flavio Dino envolvido em denúncias de corrupção no Maranhão.
Nesta semana, Dino determinou a recondução de Andrei Rodrigues ao comando da Polícia Federal, depois de André Mendonça ter determinado seu afastamento.
Edson Fachin posteriormente suspendeu as decisões conflitantes dos dois ministros, alegando risco de grave lesão à ordem pública.
E há outro detalhe impossível de ignorar.
Uma das decisões recentes de Dino envolve uma investigação da Polícia Federal de Lula relacionada ao filme “Dark Horse”, uma produção sobre Jair Bolsonaro.
A operação da Polícia Federal provocou reação imediata de Flávio Bolsonaro, que acusou o ministro de interferência política.
Não parece exagero perguntar se o conjunto de decisões tomadas por instituições do Estado pode acabar produzindo efeitos políticos sobre uma eleição.
É justamente aí que entra o chamado Sistema.
Em 2022, Moraes estava no comando do TSE.
Em 2026, Dino está no STF e também no TSE.
E Lula tenta a reeleição.
São fatos.
O que deveria preocupar qualquer eleitor, independentemente de preferência partidária, é saber se os candidatos estão disputando uma eleição em condições efetivamente equilibradas.
Porque democracia não significa apenas colocar uma urna eletrônica diante do cidadão.
Significa também garantir que as regras do jogo sejam as mesmas para todos.
Se o Sistema começa a escolher quem pode falar, quem pode investigar, quem pode ser investigado e em quais condições cada candidato pode disputar uma eleição, então o debate deixa de ser apenas sobre Lula ou Bolsonaro.
Passa a ser sobre algo muito maior:
quem está controlando o jogo enquanto o eleitor ainda não chegou ao campo?
Marco Aurélio, jornalista mspontocom
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